O Queijo e os Vermes #18

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Autor: Carlo Ginzburg
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2006
Páginas: 198

“E, abandonando toda reserva, toda prudência, Menocchio declarou recusar todos os sacramentos, inclusive o batismo, por serem invenções dos homens, ‘mercadorias’, instrumentos de exploração e opressão por parte do clero: ‘Acho que as leis e os mandamentos da Igreja são só mercadorias e que se deve viver acima disso'”

Um clássico da chamada “Micro-História”, O Queijo e os Vermes traz a história do processo aberto pela Igreja Católica, em pleno movimento de Contrarreforma no século XVI, contra as atitudes heréticas de um moleiro da região do Friuli, no norte da Itália, de nome Menocchio. Mas qual eram as heresias de Menocchio? Qual o desdobramento do processo? Que fim teve Menocchio?

Carlo Ginzburg apresenta uma história pontuada com diversas faces. A verdade é que Menocchio tinha algo que naquela época poucos tinham: autonomia de pensamento. Ele adquiriu uma forma de enxergar o mundo à sua volta de forma espetacular, com críticas vorazes à Igreja principalmente. Essa cosmogonia foi construída através da leitura de diversas obras. Obras consideradas comuns, como a Bíblia escrita em vulgar, quanto obras proibidas pela Igreja, como o Decameron de Boccaccio, chegaram às mãos de Menocchio através de empréstimos. Porém o sensacional é que o mais importante não são as obras em si, mas a forma como Menocchio as interpretou, à luz de conhecimentos pagãos e da cultura oral popular da época. Menocchio consegue ver através das linhas, consegue construir conhecimentos próprios apenas lendo e interpretando os livros.
Após 3 anos da abertura do processo Menocchio foi considerado herege, obrigado a abjurar em praça pública suas heresias e a uma pena de encarceramento de 3 anos. Após esse período Menocchio voltou à sua vida normal de moleiro, mas algo em sua mente continuava a incomodá-lo. Perdeu esposa e o filho mais querido, e com a senilidade veio a solidão, não apenas física, mas intelectual, pois sentia que a população de sua aldeia ainda estava longe de enxergar o que ele via. E pelos mesmos motivos de antes, um novo processo foi aberto, e as mesmas acusações foram enviadas ao Santo Ofício. Não houve como escapar, as garras da Igreja dessa vez se fizeram mais fortes e um velho moleiro com ideias heréticas foi morto em nome da santidade.

Cabe ressaltar que o Friuli do século XVI era um local, como todos os outros da mesma época, onde a Igreja dividia o poder com reis e príncipes; onde o saber ler estava restrito a um número muito pequeno de pessoas; e onde expressar opiniões próprias não era condenável, mas extremamente imprudente.
Ginzburg parte dessa singular história para traçar um panorama das relações existentes entre a cultura da elite e a cultura popular oral, e de como elas se perpassam e se completam. Excelente leitura. Instiga o leitor a se colocar no lugar de Menocchio, mas nos dias de hoje. Será que nossas interpretações dos livros que lemos nos tornam diferentes dos outros?
Grande obra!

A imagem destacada é o quadro L’agitateur du Languedoc de Jean-Paul Laurens, e retrata um tribunal do Santo Ofício da Inquisição.

Um filme que retrata um pouco o que foi a Inquisição é Sombras de Goya, de 2007.

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