Fédon #34

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Autor: Platão
Editora: Ediouro
Páginas: 60

“O corpo de tal modo nos inunda de amores, paixões, temores, imaginações de toda sorte, enfim, uma infinidade de bagatelas, que por seu intermédio não recebemos na verdade nenhum pensamento sensato.”

Como é a existência após a morte?
Esse diálogo de Platão situa-se na última reunião de Sócrates com alguns de seus discípulos. Sócrates já havia sido julgado e condenado pelo tribunal de Atenas e aguardava a execução da pena (beber veneno) na cadeia. No dia em que iria se consumar a execução, Fédon, um de seus seguidores, ouviu de Sócrates uma reflexão sobre a imortalidade da alma.
Sócrates divide corpo e alma como duas partes de um mesmo ser. Partes complementares, porém distintas uma da outra. O corpo é o terreno das sensações, sendo aquele que atrapalha a alma a conhecer a verdadeira natureza das coisas. Dessa forma, apenas os filósofos conhecem realmente o sentido da existência, e por procurar a verdade nas coisas estão prontos para a morte, que seria, na verdade, um novo começo junto da sabedoria.

O argumento de Sócrates é comprovado através de frases concisas e de perguntas que já contêm as respostas. Se o filósofo passa a sua existência inteira em busca da sabedoria, se ele busca habituar a alma a manter-se afastada das sensações que o corpo lhe proporciona, e considerando que a morte é a etapa que verdadeiramente separa o corpo da alma, e que esta irá encontrar a sabedoria pura após o desenlace com o corpo, porque então o filósofo irá temer a morte? porque o filósofo não irá, ao contrário, sentir-se em jubilo por se aproximar o tão esperado momento de sua vida: aproximar-se da sabedoria plena?

“Ter uma alma desligada e posta à parte do corpo, esse não é o sentido exato da palavra morte?”

Na teoria dos contrários, Sócrates afirma que tudo o que existe vem de seu contrário, e que depois de sua existência volta a ser esse contrário, algo que é maior era menor, e quando deixar de existir voltará a ser menor. Assim, o que é vivo veio do que estava morto, em um círculo infinito de composições. Dessa forma, Sócrates tenta comprovar para seus interlocutores que a alma, sendo parte integrante do ser, mas distinta do corpo, após a morte desse ser, voltará para um lugar onde ficará perto dos deuses e da sabedoria para depois voltar a compor-se com um corpo nesse plano de existência.
Sócrates também versa sobre a sua teoria das Ideais, onde a realidade é em si mesma por conta da ideia pura dessa realidade, por exemplo: uma cabeça é maior do que a outra não em comparação com aquela que é pequena, ela é maior por causa da ideia de grandeza. E assim acontece com todas as realidades em si.

Vejo esse diálogo como a cosmogonia de um povo antigo, ou seja, a forma como esse povo enxergava e explicava o mundo que o rodeava. Dessa forma, Sócrates explica que as almas daqueles que buscaram o saber estão destinadas a voltar em animais corretos em suas tarefas, como formigas, ou ainda voltar em seres humanos de extrema honestidade. Quanto às almas daqueles que intensificaram seus laços com o corpo, e ficaram atentos apenas às vontades corpóreas, estes vagarão nos cemitérios e encontrarão retorno apenas em animais de um estrato mais baixo como asnos e lobos.

“Uma vez evidenciado que a alma é imortal, não existirá para ela nenhuma fuga possível a seus males, nenhuma salvação, a não ser tornando-se melhor e mais sábia.”

No diálogo ainda é possível ver que outro autor de grande valor, Dante Aligheri, bebeu da fonte chamada Platão: já no final do diálogo Sócrates explica a seus ouvintes para onde as almas, boas e más, são levadas: para Aqueronte, um rio que representa o paraíso; ou para Cocito, um rio que representa o inferno. Além disso há o mar chamado Tártaro que representa o purgatório. As referências são enormes.
Outra singularidade que me chamou atenção foi o fato de Sócrates tratar seus ouvintes como discípulos e não se sentir com medo ou aversão à morte que se aproximava. Diz ele que algo maior o esperava na morte e que a proximidade com a sabedoria e com os deuses transformaram aquele instante em um momento de alegria e não de tristeza. Isso me lembra outro grande pensador que também se portou de forma parecida aproximadamente 350 anos DEPOIS: Jesus Cristo!
Platão é sensacional.

Nesse diálogo identifico três grande referências posteriores: o Espiritismo, o livro Divina Comédia, e algumas passagens de Jesus Cristo na Bíblia. Para mim isso é fantástico.
O livro foi escrito há muito tempo, mas a mensagem do livro é muito atual: preocupe-se menos com o corpo e mais com a alma, pois sendo terreno de sensações, o corpo pode traí-lo, enquanto que a alma sempre terá lugar reservado junto aos deuses.

Recomendo a todos!!!

Até a próxima.

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7 comentários

    1. Exatamente, e o que é interessante é que o espiritismo vem bem depois disso, então dá para saber quem pegou de quem. O budismo é um dos assuntos que mais tenho dúvidas e um dos que mais tenho vontade de aprender. Mas acho que temos que ter um certo grau de reflexão para entender com propriedade o que é o budismo.

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