O Mundo de Sofia #39

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Autor: Jostein Gaarder
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2012
Páginas: 566

“De que vale, afinal, o eterno criar,
se toda criação se desfaz no ar?”

Será que somos apenas personagens, ou marionetes, de um arquiteto sádico, ou de um mágico louco? Será só isso? Somos apenas joguetes do destino?

O livro pode ser dividido em duas partes, uma filosófica e outra da história de Sofia, e Hilde. Mas não são partes estanques, as duas estão intimamente ligadas. Contudo, para facilitar a leitura vou dividir esse texto em dois momentos.

Os adultos davam o mundo por visto. Eles estavam irremediavelmente entregues ao cotidiano, girando em torno de si próprios como frangos assados no espeto.

A parte filosófica é uma verdadeira aula de Filosofia, literalmente. Sofia Amundsen começa a receber cartas anônimas sobre algumas perguntas sem pé e nem cabeça, que logo se transformam em calhamaços contento toda a história da Filosofia antiga, desde os pré-socráticos e sofistas passando por Sócrates, Platão e Aristóteles até chegar ao Helenismo e à Jesus Cristo. Por ser a parte da filosofia que mais gosto, essa seção do livro é muito boa. Apresenta o resumo dos principais pensamentos desses que são os pais da filosofia moderna.
A partir desse momento o professor responsável por essas aulas, Alberto Knox, passa a se encontrar pessoalmente com Sofia e as conversas são sobre a história Filosofia. Primeiro na Idade Média através de São Tomas de Aquino e Santo Agostinho, e seus pensamentos de cristianizar Sócrates e Platão.
Depois é a vez da Filosofia Renascentista com os racionalistas Espinosa, Descartes. Mais à frente uma aula sobre o empirismo britânico com Locke, Hume e Berkeley, esse último me chamou a atenção pois negou a existência de um mundo material além da consciência humana.

Alberto passa então aos filósofos do Iluminismo, como Rousseau, Voltaire e Montesquieu, e a tentativa deles para estabelecer fundamentos para a moral, a religião e a ética de acordo com a razão. A partir daqui, Sofia passa a estudar a parte mais densa da filosofia, e do livro também. Ela descobre Kant, Hegel e Kierkegaard.
Sobre Kant, Alberto fala da importância na diferença entre “a coisa em si” e “a coisa para mim”, pois só podemos saber de fato como as coisas se mostram para nós e não como elas realmente são.
Expoente do Romantismo, Hegel apresenta uma forma de pensar muito rica, além de apresentar um método para compreender o curso da história. Alberto então fala para Sofia que importante no pensamento de Kierkegaard é encontrar as verdades que sejam importantes para a vida de cada indivíduo. Além de dizer que a verdade é subjetiva.

Chegando na modernidade, Alberto explica o materialismo histórico de Marx, bem como toda a sua filosofia; a teoria da seleção natural de Darwin além dos outros resultados de seus estudos; os estudos do inconsciente de Freud; e o fantástico existencialismo de Sartre, para quem existir é criar a sua própria existência. O estudo da filosofia termina onde tudo começou: no universo.
Cada visão filosófica do mundo é conversada de maneira fácil (às vezes nem tanto) de acompanhar. Lógico que os grandes filósofos tratados no livro estão de forma resumida, mas abre a possibilidade para que o leitor tenha contato com eles e possa se aprofundar, se quiser, lendo suas próprias obras, que não por caso estão também citadas. 🙂 (Eu já estou procurando por Kierkegaard, Sartre e Freud)

Uma questão que vira e mexe permeia a vida dos filósofos pós-Cristo, além é claro de tentar entender e explicar o mundo, é a existência ou não de Deus. Alguns dizem que ele é a natureza, alguns afirmam que ele é o mundo e que o mundo está nele. Outros têm pensamentos que afastam a possibilidade de sua existência se houver qualquer busca por pensamento racionais. Fica uma dúvida, que aliás é A dúvida que aflige muita gente através da história do mundo. Eu fico com a definição de Kierkegaard: para ele não importa em que você acredita, isso tem que ser a verdade para você, tem que ter significado para você, somente para você.

Podia muito bem lidar com a ideia de que Deus havia criado o universo, mas e quanto ao próprio Deus? Ele havia criado a Si mesmo, do nada? Apesar de Deus conseguir criar um homem atrás de outro, Ele jamais conseguiria criar a Si mesmo antes de ter se tornado ‘um ser’ capaz de criar outro.

A parte da história de Sofia é igualmente fantástica. Às vésperas de completar 15 anos ela começa a receber cartas anônimas sobre Filosofia. Conhece Alberto Knox, o remetente das cartas e cria com ele um laço de amizade. Tudo o que ela aprende no curso de Filosofia ela consegue levar para o seu cotidiano e isso muda a forma como Sofia passa a ver o mundo e o seu lugar nele. Cada encontro com Alberto é cheio de singularidades, seja através de uma roupa que Alberto usa, seja através dos objetos que ele tem em sua casa, e principalmente as histórias que conta.
O leitor cria um laço de simpatia por Sofia Amundsen e passa a, junto com ela, tentar desvendar o mistério dos cartões postais. Sofia começa a receber cartões postais de um certo Albert Knag destinados à Hilde Knag, sua filha que assim como Sofia está prestes a completar 15 anos. São cartões do Líbano, país que Albert serve como major, pela ONU.

Duas crianças que fazem aniversário no mesmo dia. Sofia sonha com lugares que fazem parte da realidade de Hilde. Visita uma cabana onde o pai de Hilde morou. É muita coincidência, mas continua sendo apenas coincidência. E o que faria os caminhos de Hilde e Sofia se cruzarem: o destino ou um livro? A reviravolta na história é surpreendente. Sem querer dar spoiler, mas nada é o que parece neste livro, só o curso de Filosofia, que aliás é muito bom.

Algumas das pessoas mais estúpidas que ela conhecia eram afinal pessoas que tinham certeza das coisas sobre as quais não faziam a menor ideia.

A imagem destacada é o quadro Escola de Atenas, pintado pelo artista renascentista Rafael entre 1509 e 1511. Retrata a Academia de Atenas de Platão. A pintura está cheia de “celebridades” filosóficas como Platão, Aristóteles, Sócrates, Ptolomeu e Pitágoras.

Indico o filme A Árvore da Vida, de 2011.

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Até a próxima!

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8 comentários

  1. Esse é um dos melhores livros que já li. É uma aula de filosofia num livro de literatura. Isso torna tudo mais leve! Parabéns pela resenha e por ter terminado o livro. Conheço pessoas que não tiveram paciência para terminar essa leitura.

    Curtido por 2 pessoas

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