Náufragos #42

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Autor: Eduardo San Martin
Editora: Artes e Ofícios
Ano: 2009
Páginas: 245

Em Náufragos, as narrativas reproduzem histórias de marinheiros. Não são aventuras mirabolantes ou feitos extraordinários, mas as circunstâncias de homens comuns, que sobrevivem a naufrágios em mares traiçoeiros e enfrentam perigos ainda maiores em terra firme, perseguidos por índios nas matas e por colonizadores portugueses e espanhóis nos assentamentos existentes ao redor de portos recém criados na América Portuguesa e na Espanhola a partir do século XVI.

São histórias escritas muito depois dos acontecimentos e possuem o direito à dúvida. É bom lembrar que após o descobrimento das Américas, todo capitão ou marinheiro que saía dos portos da Inglaterra, Espanha e Portugal sempre voltava com alguma história para contar. Algumas claramente fantasiosas outras nem tanto. Neste livros estão reunidas algumas que possuem alguma veracidade em suas informações. Um ponto interessante dos relatos é a descrição dos acidentes geográficos característicos da costa da América do Sul.

A saga de Peter Carder (Do rio da Prata aos mares da Bahia)

É a história do marinheiro inglês Peter Carder que após se perder de sua frota com outros 7 companheiros em setembro de 1578, vira náufrago na foz do Rio da Prata. Seu primeiro encontro com índios mata seis de seus companheiros, o outro morre após ingerir muita água depois de um grande período de sede. Sozinho, Peter Carder trava um encontro desesperado com índios que ele chama de “Tup’n’Bass” (Tupinambás) e passa a viver com eles.
Decidido ao voltar a Inglaterra, Peter pede ao chefe da tribo para levá-lo até algum assentamento europeu e ele faz uma longa viagem até o porto de Todos os Santos (Bahia). Porém, lá chegando ele é tratado como invasor e sofre a ameaça de ser enviado para Portugal para trabalhar como escravo. Após 3 anos aguardando o envio para a Europa o marinheiro inglês consegue fugir, encontra uma frota inglesa e depois de 9 anos e 14 dias volta a pisar em solo inglês. Conta essa história a soberana que, maravilhada, manda seu escrivão real colocá-la no papel. Verdade ou mentira, é uma história e tanto.

Os erros de Thomas Cockle, o “Erva Daninha” (Assalto à barra do Espírito Santo)

Essa é a história do capitão inglês Thomas Cockle e sua tripulação a bordo da nau Victor. Em 1608, após passar pelo Estreito de Magalhães, ao sul da Terra do Fogo, Cockle se vê em apuros ao ter seu barco avariado por tenebrosas tempestades. Mas com uma costa brasileira repleta de portugueses e índios ávidos para matar qualquer invasor, Cockle acaba perdendo muitos homens na barra do Espírito Santo. Após outro encontro com muitas mortes na Ilha Grande, próxima a São Vicente, Cockle parte para a Ilha de Santa Helena no meio do Oceano Pacífico, mas um grande motim acaba com a sua liderança. Sua aventura pelos mares termina com sua prisão domiciliar na Inglaterra. Maus ventos o levaram de volta para casa.

A Fuga de Philip Ashton (Prisioneiro de piratas nas ilhas do Grão-Pará)

Philip Ashton era um marinheiro inglês que teve o navio em que navegava atacado por piratas em junho de 1722.

A bordo, também descobri que caíramos nas garras de Ned Low, um pirata maldito, famoso no mar do Caribe pela crueldade dos seus assaltos e maus-tratos da sua própria tripulação.

Após um período trabalhando para os piratas, saqueando diversos navios pelas ilhas do sul do Caribe, ele finalmente consegue fugir e se refugiar em algumas ilhas na foz do Rio Amazonas, próximo à ilha de Marajó. Sem saber nadar e sem nenhuma ferramenta, Ashton passa por momentos dignos de seriados sobre sobrevivência: descobre que a vontade de viver está acima de qualquer dificuldade.

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A sorte de Daniel Duff (Salvo pelos índios do Rio Paraíba)

Essa historia se passa no ano de 1756 quando o Capitão da corveta Brisky, Daniel Duff, ao fazer a viagem inaugural do navio, pega uma tempestade medonha. Saindo do Caribe com destino ao Suriname a tripulação do Brisky fica reduzida a apenas Daniel e mais 3 sobreviventes em uma barca pequena e furada. A tempestade é digna dos piores pesadelos de qualquer homem do mar.

Gritei que era tarde demais para rezar. Tinham que cortar as cordas e cair no mar. Agora, era fé Deus, mãos nas cordas e pé na tábua, porque madeira boia. Quando chega a hora ruim, só escapa quem encara a morte de frente.

Após onze dias a deriva com a correnteza levando-os para o sul, finalmente encontram uma praia e índios samaritanos que os acolhem, alimentam, tratam suas feridas e ajudam a encontrar algum navio de bandeira inglesa para poderem retornar à pátria mãe. Essa história pode ser verdadeira, mas contém alguns traços de fantasia.

O Abandono de John Mawson (Sodomita condenado da ilha da Trindade)

Em maio 1675, um marinheiro holandês de nome John Mawson foi deixado na Ilha da Trindade (a 1200 km de distância do Espírito Santo) à sua própria sorte. Ele permaneceu na ilha por cerca de cinco meses, onde escreveu um interessante diário encontrado junto a seu esqueleto muitos anos depois, e este é o seu diário.

Nada afasta de mim as vozes do decepados, a ladainha dos mutilados, as dezenas de mouros e ibéricos empalados, os chineses, espanhóis, franceses, todos embaralhados, que degolei mais por vício do que necessidade, os negros escravos que castiguei sem motivo, os selvagens do Novo Mundo que matei por diversão.

Em suas anotações, ele descreve as explorações que fazia pela ilha em busca de comida e água, ambas escassas. Um pedaço da Bíblia era sua única distração. Mawson começou a ser assombrado por visões de fantasmas que, segundo acreditava, eram de pessoas mortas por ele. Finalmente ele se confessa: apesar de todo o mal que causou a tantas pessoas, a sodomia e a pederastia, que ele praticava contra inválidos e bêbados no convés dos navios foi a sua ruína. Com pouca água e pouca comida, sob um calor tropical em uma ilha no meio do oceano, Mawson tentou manter a civilidade até onde pôde. O seu diário mostra a decadência de um corpo são em uma alma apodrecida. Um relato nauseante.

A astúcia de Roger Woods e seus companheiros (Reféns dos Incas no Reino do Peru)

Em 1710, após contornar o estreito de Magalhães com direção ao Oceano Pacífico, o navio Holandesa foi pego de surpresa por uma grande tempestade. Woods e mais 35 tripulantes ficaram à deriva na costa ainda desconhecida por eles.

Não há terra à vista, e o que boia é cortiça! Cortem o resto de mastro rente ao chão e abandonem o barco, que o convés virou um charco. A alma é de Deus, o corpo é dos peixes e o amor é do mar. Nessas águas arredias, a morte e não a vida é a única viagem definitiva.

Mas ao conseguirem desembarcar, descobrem que foram parar no território dominado pelos incas. As surpresas com a organização e a violência com que foram tratados foram sentidas na mesma intensidade. Depois de quase um ano sob o domínio inca, finalmente Woods e seus homens conseguem uma barca velha e a autorização do rei inca para partir. Sem instrumentos a tripulação novamente acaba parando nas águas violentas do estreito de Magalhães. Novamente são pego em uma tempestade horrenda, mas dessa vez o navio rompe o casco e joga os sobreviventes contra as pedras. Milagrosamente Woods é resgatado por um casal de náufragos que há muito se estabeleceu na Terra do Fogo e por lá vivia. Esse relato foi escrito pelo próprio Woods na Patagônia à espera de alguma embarcação para voltar para sua terra.

Livro muito interessante por contar um pouco de como eram as navegações na época do descobrimento das Américas.

Na imagem destacada o quadro A Balsa de Medusa de Theodore Gericault.

Indico o filme Hans Staden, produção brasileira de 1999 que conta a saga de um imigrante alemão que naufragou no litoral de Santa Catarina, e que retrata bem os primeiros contatos do europeu com o índio.

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Até a próxima!

 

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