Estação Carandiru #44

cAutor: Drauzio Varella
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2005
Páginas: 230

Vocês estão chegando na Casa de Detenção de São Paulo para pagar uma dívida com a sociedade. Aqui não é a casa da vovó nem da titia, é o maior presídio da América Latina. Aqueles que forem humildes e respeitarem a disciplina, podem contar com os funcionários para ir embora do que jeito que a gente gosta: pela porta da frente com a família esperando. Agora, o que chega dizendo que é do crime, sangue nos olhos, que é com ele mesmo, esse, se não sair no rabecão do Instituto Médico Legal, pode ter certeza que vamos fazer de tudo para atrasar a vida dele. Gente assim, nós temos mania de esquecer aqui dentro.

O livro é o relato do Dr. Drauzio Varella sobre os anos que passou na Casa de Detenção de São Paulo, vulgarmente e mundialmente conhecida como Carandiru. Inicialmente Drauzio entrou na cadeia para participar de uma campanha de conscientização dos presos para o risco da AIDS, que crescia assustadoramente entre os detentos. O terror que o doutor sentiu quando entrou na cadeia pela primeira vez e o portão atrás dele fechou significa muitas coisas. Primeiro o fato óbvio de estar preso dentro de uma cadeia junto a diversos tipos de bandidos e malandros, de estupradores e assassinos até estelionatários e ladrões de galinha. E o segundo, mais sutil, de natureza humana: ficar sem sua liberdade.

Neste livro, procuro mostrar que a perda da liberdade e a restrição do espaço físico não conduzem à barbárie, ao contrário do que muitos pensam. Em cativeiro, os homens, como os demais grandes primatas, criam novas regras de comportamento com o objetivo de preservar a integridade do grupo.

Como o projeto tinha prazo de validade, ao seu fim Drauzio se viu na difícil missão de abandonar aquelas pessoas tão necessitadas de acompanhamento médico. Haviam médicos na cadeia, mas todos desmotivados. Ele decide então assumir uma das enfermarias do pavilhão 2 e atender quem precisasse. Dessa forma começa um dos mais surpreendentes relatos sobre o dia a dia da maior cadeia da América Latina. Com o interesse e respeito dos presos, Drauzio vai mostrando um pouco da vida de cada um dos presos que mais chamaram a sua atenção, seja pela malandragem, seja pela crueldade, seja pela humanidade presente em cada um deles.

Mataram meu irmão. Depois de uns dias, o assassino teve um encontro com a morte. A suspeita recaiu-se sobre a minha pessoa. Uns dizem que fui eu, mas não viram, e outros dizem que viram que eu não fui. E, nessa de uns achar que fui eu sem ver e outros ver que não, eu estou aqui na expectativa do que o juiz vai decidir.

dDr. Drauzio faz verdadeiros inventários sobre diversos aspectos da cadeia: a localização, o funcionamento e o tipo de preso que havia em cada um dos 7 pavilhões; o funcionamento da limpeza dos pavilhões a cargo dos próprios presos; o funcionamento do dia de visitas. Porém, o aspecto humano é muito forte na obra. Ao contar como alguns presos haviam chegado à cadeia, o relato é desprovido de julgamento, o tratamento do doutor idem: sem julgamento. Mesmo no tratamento de travestis, estupradores ou evangélicos, o respeito e a medicina falavam mais alto.

Para começar, uma grande dificuldade, além da burocracia, eram as condições extremamente insalubres das celas. Ninhos de proliferação de sarnas, micoses, dermatites, viroses de todos os tipos, e tuberculose. Tudo aliado ao consumo excessivo de drogas, primeiro cocaína injetável depois crack, transformavam a “enfermaria do 2” em um verdadeiro hospital de guerra. Com muito tato e profissionalismo, Dr. Drauzio consegue trazer um pouco de humanidade àqueles que mais necessitavam.

Com mais de vinte anos de clínica, foi no meio daqueles que a sociedade considera como escória que percebi com mais clareza o impacto da presença do médico no imaginário humano, um dos mistérios da minha profissão.

Outro ponto alto do livro é a descrição do funcionamento, limpeza, carteiro, distribuição de alimentação, tudo feito pelos próprios detentos. Algumas empresas davam trabalhos para àqueles que queriam o quanto antes sair do Carandiru. E sempre havia aquela sensação dúbia entre ajudar bandido, enquanto nas ruas a violência só aumentava.

E então acontece a rebelião, famosa, em 2 de outubro 1992, onde, pelas estimativas da PM, 111 homens perderam a vida; mais de 200 pelas estimativas dos presos, fora os feridos que nunca mais voltaram. Drauzio tem o relato dos presos, sua visão dos acontecimentos. Ele não tenta empurrar goela a baixo do leitor quem está certo quem está errado, mas o livro tem uma tendência a dignificar o preso na cadeia. Talvez essa leitura que eu faço nesse momento esteja imbricada pelo discurso tão em voga ultimamente de que “bandido bom é bandido morto”. Apesar de não compactuar com esse pensamento, nem viver em uma cidade violenta, soa estranho mostrar humanidade em assassinos, estupradores e traficantes.

É um livro muito interessante que merece uma leitura atenta.

Na imagem destacada uma foto tirada após a rebelião, na frente da Casa de Detenção.

Uma ótima indicação de filme é Carandiru, produção brasileira de 2003, baseado no livro.

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Até a próxima!

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