A Peste #47

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Autor: Albert Camus
Páginas: 294
Formato: Epub

Depois da chuva, o silêncio tornou-se mais espesso no quarto, cheio apenas do mudo tumulto de uma guerra invisível. Crispado pela insônia, o médico imaginava ouvir nos limites do silêncio o silvo doce e regular que o acompanhara durante toda a epidemia.

 

O livro fala da cidade de Orã, cidade do litoral da Argélia, que vive um surto de peste bubônica em pleno século XX. A história é centrada no médico Bernard Rieux, e em sua rotina que varia entre visitas a doentes, atendimento no hospital e as relações com sua mulher doente e sua mãe idosa. Mas algo estranho começa a acontecer: ratos aparecem mortos em todos os cantos da cidade. Contudo, esse fato passa despercebido pelos cidadãos.

Um dia Rieux é chamado as pressas à casa de um homem que sofre com uma terrível febre, com inchaço nos gânglios e manchas vermelhas por todo o corpo. A possibilidade da doença desse homem ser peste era nula, mas o desenrolar dos fatos, das mortes dos ratos e do aumento dos casos de febre levanta essa opção e Rieux é chamado pelas autoridades para participar do comitê que decidirá quais medidas deverão ser tomadas. Logo fica confirmado que a famosa peste bubônica, que assolou a Europa na idade média matando um terço da população, estava de volta.

Dir-se-ia que a própria terra onde estavam plantadas nossas casas se purgava de seus tumores, pois deixava subir à superfície furúnculos que, até então, a minavam interiormente.

As primeiras medidas foram o fechamento da cidade e do porto, e tudo muda. Os cidadãos assolados por uma doença altamente agressiva e transmissível ainda precisam conviver com o isolamento do mundo, alguns conseguem, outros não. As medidas sanitárias se tornam supérfluas diante do aumento expressivo no número de mortos. Todos estão na mira da peste e a escassez do álcool torna tudo mais difícil. Depois de tantos flagelos, um novo soro e o clima frio do inverno trazem algum alento a Rieux e sua equipe. Finalmente a peste recua. A história terminaria aqui e assim, se o livro não fosse escrito por Camus.

Já não havia então destinos individuais, mas uma história coletiva que era a peste e sentimentos compartilhados por todos. O maior era a separação e o exílio, com o que isso comportava de medo e de revolta.

A simples descrição do clima de Orã se torna um escrito de uma beleza e de uma profundidade peculiar. O clima se envolve com e muda os cidadãos de Orã, no verão a cidade pulsa, o porto ferve e a alegria das pessoas está em alta. Em contraste, os ventos invernais expulsam todos das ruas e a cidade hiberna por um tempo. Camus também dá atenção especial aos personagens, Rieux, é o principal e narrador-espectador da história, e muito mais do que um médico é um amigo. Contudo, a doença suga todas as suas forças e a indiferença diante da eminência da morte se apodera de Rieux. E ainda há Rambert, um jornalista estrangeiro que fica preso em Orã e deseja sair da cidade, mas acaba se compadecendo dos doentes e fica até o final. Além de vários outros personagens que servem como exemplos para mostrar como ficou o sentimento das pessoas. Camus apresenta o sentimentos dos personagens em longas passagens que nem por isso são enfadonhas.

A existência do ser humano é a marca desse livro. Existimos, ou vivemos, para quê, ou para quem? Diante de uma doença ficamos mais certos de que a vida não passa de um sopro, pois o que há entre a primeira aspiração e a última expiração é o que importa. Para Camus, o ser humano não passa de um joguete do destino. Não importa o que façamos, sempre estaremos aquém do que o mundo nos mostra. É um livro muito bom, muito profundo e cheio de nuances. É um livro que confirma o meu pensamento de que as leituras que fazemos dizem mais sobre nós do que das próprias histórias.

O que dizer então daquele que vai morrer, apanhado na armadilha por detrás das paredes crepitantes de calor, enquanto, no mesmo minuto, toda uma população, ao telefone ou nos cafés, fala de letras de câmbio, de conhecimentos ou de descontos? Compreenderão o que há de desconfortável na morte, mesmo moderna, quando ela chega assim, num lugar seco.

Na imagem destacada o quadro do pintor belga Peter Bruegel, Triunfo da Morte, de 1562, e retrata bem o desastre que a peste causou à Europa.

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Até a próxima!

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