A Guerra dos Botões #50

P_20170927_213121_NT_1Autor: Louis Pergaud
Editora: Ediouro
Ano: 1999
Páginas: 124

Eles se estrangulavam, se agarravam, se arranhavam, se pegavam a pauladas, se mordiam; as mangas dos aventais e as fraldas das camisas voavam; os olhos choravam, as pernas se enrolavam e se desenrolavam, as narinas sangravam.

 

O livro é um convite a um mergulho de volta à infância. Uma infância pura, sem tecnologias e modernidades. O livro me tocou por isso, tendo passado minha infância nos final dos anos 1980 e início dos anos 1990, em uma cidade do interior do Rio de Janeiro, as minhas preocupações eram enormes: como eu poderia conciliar jogar bola e andar de bicicleta ao mesmo tempo? a filha da minha vizinha olharia para mim novamente? qual seria a próxima aventura dos meus bonecos? Eram coisas muito importantes para um garoto de 9 anos. E eu lembrei de tudo isso ao ler esse livro.

“Eles nos chamaram de patifes, de cretinos, de ladrões, de porcalhões, de carniças, de merdas, de bundas-moles, de …”

Somos levados ao interior da França, entre as aldeias de Longeverne e Velran. Conta uma lenda muito antiga que ninguém sabe porque, mas uma grande rixa envolve os meninos dessas duas aldeias. Todos os anos esses meninos guerreiam entre o outono e o inverno em busca da afirmação de suas virilidades. Organizados com paus, pedras e estilingues, esse meninos lutavam como se não houvesse amanhã, sempre com o cuidado para não estragar a roupa de domingo, pois domingo era dia de ir à missa.

Um mundo onde o padre era o velho de preto, que vivia a passar sermão nos meninos. Onde a escola era o lugar sagrado, não para estudar, mas para elaborar os melhores planos de guerra. O professor era apenas um carrasco que não pensava em outra coisa que não fosse geografia e o maldito sistema métrico. Pais e mães, pobres e trabalhadores, não entendiam a gravidade da situação, não entendiam que o futuro da aldeia estava nas mãos dos meninos que todas as tarde iam à pedreira para defender a honra da aldeia. Na verdade os adultos eram um chatos, que só pensavam em dinheiro, e achavam que os seus filhos não sabiam o que eles, pais, haviam feito quando jovens.

“Como se as crianças fossem assim tão transparentes como os adultos! Desde cedo, conscientes da hipocrisia social, jamais, diante de quem pudesse exercer sobre elas a menor parcela de autoridade, se mostravam como eram.”

Em suas épicas batalhas, os garotos de Longeverne guerreavam com o coração, e quando conseguiam um prisioneiro o ritual era sempre o mesmo: retiravam os espólios, que consistiam em todos os botões, elásticos, meias, fitas e acessórios. Depois davam umas boas sapecadas nas bundas de seus inimigos para envergonhá-los. Entre batalhas e respeito à hierarquia, o livro mostra que o mundo infantil é muito mais do que apenas brincadeiras, é o primeiro passo para formar o caráter de um adulto. E duvido muito que você, com mais de 30 anos, não tenha pelo menos uma lembrança de sua infância ao ler esse livro.

“- E depois?
– Depois eu a beijei, claro!
– E você pôs o…
– Eu não, para me sujar todo?
– Puxa, é verdade que as mulheres são sujas!
– Quando elas são pequenas ainda passa, mas quando crescem, ficam cheias de uma coisa…”

Leitura para se deliciar.

Existe um filme baseado no livro: A Guerra dos Botões, de 2011.

Na imagem destacada o quadro de Pieter Bruegel, chamado Jogos Infantis. A pintura é de 1560.

Comprar: Amazon

Até a próxima!

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