O Vermelho e o Negro #53

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Autor: Stendhal
Editora: Publifolha
Ano: 1998
Páginas: 555

“De fato, essas pessoas sensatas exercem ali o fastidioso despotismo; é por causa desse nome feio que a estadia nas pequenas cidades é insuportável para quem viveu nessa grande república a que chamam Paris.”

Stendhal é na verdade Henri Beyle. Nascido em 1783, teve vários pseudônimos ao longo da carreira: Cottinet, Dominique, Barão Dormant e Flegme. Segundo estudiosos, nunca um escritor mentiu tanto, se dizia que estava em um lugar era certo que estava em outro. Quanto cita uma data, ela é falsa. Apesar de esconder-se atrás de mentiras, sempre falou a verdade dos sentimentos humanos. O título do livro é alvo de muitas dúvidas. Estaria o autor se referindo ao vermelho do sangue derramado pela revolução e o negro da batina do padre? Ou seria uma referência ao vermelho da força do exército napoleônico e o negro de sua humilhante derrota?

Como! iria eu perder, por fraqueza, sete ou oito anos! Ia chegar desse jeito aos vinte e oito anos! Mas , com essa idade, já Bonaparte realizara seus maiores feitos!

A história se passa na França pós-Napoleão, e acompanhamos a vida de Julien Sorel. Filho de um madeireiro da pequena cidade de Verrières, Julien sonha com as façanhas de Napoleão, almeja ser como ele. Mas ao mesmo tempo compreende que para sair do estado servil em que se encontra, a Igreja é o caminho mais fácil. Por isso, passa os dias lendo e depois de aulas com o padre Chélan aprende o latim da bíblia. Diante de sua pequena, mas consistente formação erudita, Julien é chamado a ser preceptor dos filhos do Prefeito de Verrières, Senhor de Rênal, e vê sua vida mudar substancialmente.

A vida de Julien muda não tanto pela oportunidade de estar em meio a alta sociedade da província, mas por se apaixonar loucamente pela esposa do prefeito, Senhora de Rênal. Com longos trechos de intensas emoções, Stendhal cria diálogos amorosos ao estilo de Shakespeare. O desejo dos amantes é paradoxal: ao mesmo tempo que se desejam intensamente, se um dos dois não lhe dirige o olhar o outro automaticamente pensa em acabar com tudo, maldizendo um amor que se imaginava dourado. É tudo muito intenso.

A marcha normal do século XIX é que, quando um ser poderoso e nobre encontra um homem de coração, mata-o, exila-o, encarcera-o ou humilha-o de tal forma que o outro comete a tolice de morrer de pesar.

Julien sempre quis ser um militar, mas foi a batina que o levou a voos mais longos. Após contatos com um Cardeal de Paris, e diante da impossibilidade amorosa com a Senhora de Rênal, Julien foi chamado, primeiro para um seminário em Besançon, e depois a ser secretario do Barão de La Mole, em Paris. As nuances da Capital mexeram com Julien e a vasta biblioteca do Barão fizeram com que Julien esquecesse rapidamente a Senhora de Rênal. Tão logo estava com o coração vazio, o amor novamente se fez presente. Dessa vez, apaixonou-se perdidamente, como se fosse a primeira vez, pela filha do senhor La Mole, Mathilde.

Novamente os diálogos ficam inflamados. Julien deseja apenas que noites de verão se tornem eternas para poder ficar nu ao lado de Mathilde e amá-la intensamente sob os clarões da lua. Julien fica entorpecido. E tudo caminha com certa paz, apesar de amar Mathilde em segredo e ver que sua amada está sendo pretendida ao filho do Príncipe de Nápoles. E então a Senhora de Rênal aparece.

Por várias vezes se lhe apresentou a ideia de suicídio; essa imagem era cheia de encantos, era como que um delicioso descanso, era o copo de água gelada oferecido ao miserável que, no deserto, morre de sede e de calor.

Com a intensidade que lhe é característica, Julien tenta matar a Senhora de Rênal dentro da igreja. Não há pecado maior para um seminarista!!!! Na prisão, corroído pelo arrependimento, descobre que a Senhora de Rênal não morreu, e o alívio se transforma em resiliência. Em uma passagem digna de grande obras, Julien reflete sobre a vida e a morte, sobre o amor e a paixão. Decide aceitar seu destino, se assume culpado pela tentativa de homicídio, e se entrega, em seu julgamento, para a morte.

O amor faz mais um mártir. Não podendo conviver com dois amores proibidos, Julien prefere a morte do que a solidão.

Um livro intenso. Maravilhoso.

Na imagem detalhada o belíssimo quadro de Francesco Barbieri (Guerchin), chamado Vestizione di San Guglielmo,  citada na obra e que mostra o Duque d’Aquitânia depondo a armadura para tomar o hábito de monge.

Indico o filme francês de 1954, Le Rouge et le Noi, que pretende retratar fielmente a obra literária.

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Até a próxima!

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