Otelo #6

P_20180228_103933_1.jpg
Desculpem a etiqueta da biblioteca….

Autor: William Shakespeare
Editora: L&PM Pocket
Ano: 2011
Páginas: 168

“IAGO – Acautele-se, meu senhor, contra o ciúme. É ele o monstro de olhos verdes que zomba da carne com que se alimenta. Vive feliz o corno que, certo de seu destino, não ama a quem o ofende. Mas, ah, que minutos desgraçados passa aquele que adora, porém duvida, suspeita, porém ama com intensidade!”

William Shakespeare em suas principais tragédias nos fala da solidão do homem no mundo. Mesmo diante do amor dos filhos (Rei Lear), do amor do pai (Hamlet) e do amor da esposa (Macbeth) o homem está só no mundo. Nesta tragédia em cinco atos Shakespeare continua nessa mesma linha e proclama: tu estás só mesmo diante de amigos leais e honestos. Essa peça/livro conta a história de Otelo, um general mouro, ou seja, um homem que nasceu no Norte da África, e que acumula diversas vitórias no campo de batalha. Ele reside em Veneza, na Itália. Otelo, no início do livro, se casa com a filha do senador Brabâncio, Desdêmona, na mesma semana em que é enviado para a ilha de Chipre para conter o avanço dos turcos. Otelo deveria se deslocar para o Chipre e se tornar o governador da ilha.

Otelo e Desdêmona partem para a ilha e de lá nunca retornam. Tudo por conta do pior vilão Shakespeariano, Iago.

IAGO – Nossos corpos são jardins, dos quais nossas vontades são os jardineiros. Portanto, se plantamos urtiga ou semeamos alface, se plantamos hissopo ou capinamos ervas daninhas, se suprimos esse jardim com um único gênero de ervas ou o distraímos com muitos, seja para esterilizá-lo com ócio ou adubá-lo com trabalho diligente … ora, o poder e a autoridade reguladora disso encontra-se em nossas vontades.

Iago é o alferes de Otelo que almeja o cargo de tenente, atualmente ocupado por Cássio. E Iago deseja tanto o cargo e o status de tenente que não mede esforços para derrubar Cássio. A trama que se desenrola nos atos finais mostra a mente tirânica de Iago em sua completude. Ele coloca em ação um plano para criar ciúmes em Otelo, através da história falsa de que Desdêmona e Cássio teriam um caso amoroso. Na mente de Iago, Otelo ao descobrir a traição de Cássio o destituiria do cargo e deixaria o caminho livre.

E vários outros aspectos entram em jogo na trama. Otelo é muito mais velho do que Desdêmona e ainda não consumou o casamento, sendo ela ainda virgem. A possibilidade de não ser o primeiro e a chance de ter sido trocado por alguém mais vigoroso sexualmente destroem Otelo. O livro mostra também que Otelo possui uma personalidade singular, o tempo inteiro utiliza de retórica para falar, enaltecendo suas grandes vitórias militares muito provavelmente para desviar o foco de sua nacionalidade africana. Por outro lado se mostra rigoroso quanto à castidade de sua esposa.

IAGO – Ora, vamos! Ora, vamos! Vocês mulheres são uma pintura fora da intimidade do lar, guizos na sala de visitas, gato selvagem na cozinha, santas em suas injúrias, diabólicas quando se ofendem; dominam o jogo das lidas domésticas e sabem ser assanhadas na cama.

Desdêmona é uma jovem fraca, beirando a imbecilidade. Vale notar que as personagens femininas são particularmente fracas nas peças de Shakespeare, exceção para Julieta. Não consegue provar sua fidelidade, e mesmo diante da iminência da morte só pensa em rezar e aguardar o que o marido lhe reserva. Otelo fica cego pelo ciúme. Não consegue enxergar nada além de um par de chifres ornando sua fronte. A vilania de Iago só é descoberta, incrivelmente, pela sua esposa Emília, que sendo dama de companhia de Desdêmona ligas as peças do quebra-cabeça e entrega Iago para as autoridades. Mas já é tarde demais e, tal qual em outras tragédias, as mortes acontecem aos pares e o vermelho tinge as ruas da ilha de Chipre com o sangue de honestos, vilões, virgens e amantes.

IAGO – Um homem deve ser o que parece ser. Quanto àqueles que não são o que parecem ser … ah, se pelo menos não parecessem ser o que não são!

Apesar de ter pensamentos ruins e arquitetar um plano diabólico e perverso, Iago trata todo mundo bem. É um homem de cena. Bajula Otelo até o final, faz cortesia para Desdêmona e aconselha Cássio. Shakespeare mostra que devemos ter cuidado com todos, com aqueles que mostram fidelidade, com aqueles que demonstram nos querer bem. Pois o autor não cansa de nos alertar: o Homem está só no mundo e, a menos que busque decepção, precisa manter-se firme em suas próprias convicções sem se deixar abalar.

O texto de Shakespeare tem uma característica que me fascina desde o primeiro que li: é uma escrita atemporal. Tenha ele sido lido na França do século XVIII ou no Brasil do século XXI, ele guarda as mesmas reflexões e os mesmos ensinamentos. É um autor para ser lido, sem dúvida.

Na imagem destacada o quadro de Thomas William Roberts, de 1889, intitulado Ciúme.

Comprar:

Amazon

Indico a filme Othello, produção de 1965 de Stuart Burge, e que foi indicado a quatro Oscar. Abaixo o trailer comentado.

Até a próxima!

 

Anúncios

2 comentários

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s