Medeia #55

P_20180322_094905_1.jpgAutor: Sêneca
Editora: Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos
Ano: 2011
Páginas: 107

Nem a violência da chama nem a do vento intumescido nem a do dardo lançado ameaçadoramente é tão grande como quando uma esposa desapossada dos fachos nupciais se inflama e manifesta ódio.

Lúcio Aneu Sêneca foi simultaneamente um dramaturgo de sucesso, uma das pessoas mais ricas de Roma, estadista famoso e conselheiro do imperador. Sêneca teve que negociar, persuadir e planejar seu caminho pela vida. Ao invés de filosofar da segurança da cátedra de uma universidade, ele teve que lidar constantemente com pessoas não cooperativas e poderosas e enfrentar o desastre, o exílio, a saúde frágil e a condenação à morte. Sua filosofia ocupava-se na forma correta de viver a vida (ou seja, da ética), da física e da lógica. Via o sereno estoicismo como a maior virtude, o que lhe permitiu praticar a imperturbabilidade da alma. Entre as suas obras estão diálogos, tragédias e tratados importantes. Entre as tragédias está Medeia, baseada no trabalho homônimo de Eurípedes.

Procura nas próprias vísceras o caminho para a vingança, se estás viva, minha alma, e se é que ainda tens um pouco do teu antigo vigor.

O que fazer quando toda a sua vida vira de cabeça para baixo? Quando o marido troca a esposa por outros interesses? Onde ficam os filhos no momento da vingança? Até onde vai a vingança de uma mulher traída?

Medeia era moradora de Cólquida quando foi desposada por Jasão e se tornou uma cidadã de Corinto. Como uma tradição da época, a esposa seguia para a cidade do marido e perdia o direito à herança de seu pai. Mas ao sofrer com ameaças de castigo e morte de Acasto, senhor do reino de Tessália, Jasão recorre ao Rei Creonte, de Corinto, para tentar se proteger, vale lembrar que Jasão não busca proteção para si próprio, mas também para Medeia e os filhos. Creonte se compromete a ajudar Jasão desde que ele case com sua filha Creúsa e que Medeia fuja de volta para a sua terra, a Cólquida. Jasão aceita.

Foi isto que Jasão ousou fazer, depois de me ter privado do meu pai, da minha pátria e do meu reino: deixar-me sozinha numa terra estrangeira, homem cruel?

Mas Medeia não aceita esse casamento, mesmo que para sua proteção e a de seus filhos. Juntamente com sua ama, ela premedita o assassinato de Creonte e Creúsa através da um feitiço que faz com que a água jogada para apagar o fogo, ao invés de extingui-lo o potencializa. O palácio em chamas torna-se a tumba do Rei e de sua filha. Mas Medeia ainda não está satisfeita, e em um longo solilóquio invoca as deusas infernais e encomenda a sua alma, a de Jasão e de seus filhos. São muitas as metáforas utilizadas e o feitiço feito por Medeia contém requintes de crueldade explícita.

E para se vingar de uma vez de Jasão, leva os filhos para o telhado de uma casa em chamas e os mata cruelmente antes de morrer.

O solilóquio onde Medeia decide matar os filhos, mas ainda com algum remorso, é uma das passagens mais angustiantes que já li. Na posição de pai, me senti envolto a um turbilhão de sentimentos quanto a decisão de Medeia. Apesar de seus motivos, válidos ou não, seus filhos foram os grandes injustiçados. A obra mostra como os maus sentimentos, como a vingança, cegam aqueles que se deixam invadir. Jasão ficou vivo, mas a que custo?

Filhos, que outrora fostes meus, sede castigados pelos crimes de vosso pai. O horror abalou-me o coração, as minhas pernas estão paralisadas de frio e o meu peito estremece. A ira abandonou o seu posto, e a esposa que há em mim foi expulsa por completo, a mãe retornou o seu lugar. Será que consigo derramar o sangue dos meus filhos, da minha própria descendência? Ah, loucura insana.

Indico o filme Medeia, de 1969, que é uma adaptação do livro.

Na imagem destacada o quadro Jason and Medea, de 1759, do pintor Carle van Loo.

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Até a próxima!

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2 comentários

    1. Essas leituras são para mim um grande desafio, e quanto mais leio essas obras “clássicas” mais aprendo sobre o Homem.
      E sim, me surpreendo pela atualidade desses livros. É como se tivesse sido escrito no ano passado, e isso me faz pensar que mudamos muito pouco nossa natureza mais íntima. Somos hoje o que sempre fomos.
      Abraço e obrigado.

      Curtido por 1 pessoa

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