O Crime do Padre Amaro #57

Autor: Eça de Queiroz
Editora: L&PM Pocket
Ano: 2006
Páginas: 391

Então, passeando excitado pelo quarto, levava as suas acusações mais longe, contra o Celibato e a Igreja: por que proibia ela aos seus sacerdotes, homens vivendo entre homens, a satisfação mais natural, que até tem os animais? E quem inventou isso? Um concílio de bispos decrépitos, vindos do fundo de seus claustros, da paz das suas escolas, mirrados como pergaminhos, inúteis como eunucos! Que sabiam eles da natureza e de suas tentações? Que viessem ali duas, três horas para o pé de Ameliazinha, e veriam, sob a sua capa de santidade, começar a revoltar-se-lhes o desejo!

Eça de Queiroz foi um dos mais importantes escritores portugueses da história. Este livro foi publicado em 1875 e foi a primeira novela realista do autor, provocando polêmica, escândalo e revolta, sobretudo nos meios religiosos e na alta sociedade portuguesa. A escrita realista com descrições tão cruas de hipocrisia envolvendo o clero, a própria religião católica e a sociedade burguesa chocaram o moralismo da época.

O livro conta a história de Amaro, um recém ordenado padre que é transferido para a cidade de Leiria. Os conflitos entre o que aprendera no seminário e a prática religiosa da cidade, entre o celibato e seus desejos humanos, transformam Amaro em um homem diferente daquele que chegou à Leiria.

A sua figura amarelada e magrita pedia aquele destino recolhido: era já afeiçoado às coisas de capela, e o seu encanto era estar aninhado ao pé de mulheres, no calor das saias unidas, ouvindo falar de santas.

Amaro ficou órfão ainda pequeno e a duquesa que tomava conta dele o prometeu ao seminário após os quinze anos. O período no seminário é descrito como um momento de uma intensa busca interior por parte de Amaro. Lá ele tem certeza de que a batina é sua segunda pele. Ao ser ordenado é enviado para uma cidade situada em uma serra, um ambiente inóspito e muito aquém de suas intenções enquanto padre. Finalmente ele consegue uma transferência para Leiria.

Em Leiria ele fica hospedado na cada de D. Josefa, e conhece a sua sobrinha, Amélia. E É então que o mundo de Amaro perde o eixo. Ele se apaixona loucamente por Amélia, sofre terrivelmente por desejá-la, passa noites em claro pedindo ao seu Deus que acolha os seus pecados mais tórrido. Os conflitos de Amaro fazem uma dura crítica aos dogmas da Igreja. Amaro se depara com toda a podridão e corrupção do bispado, mas sente que não pode levar a termo os seus desejos carnais. Para ele uma total hipocrisia.

Vira num relance Amélia, em saia branca, a desfazer o atacador do colete: estava junto do candeeiro e as mangas curtas, o decote da camisa deixavam ver os seus braços brancos, o seio delicioso.

Amaro não consegue se conter dentro de sua batina, e com a retribuição de Amélia, nutre uma intensa paixão pela menina. Consumam o amor de ambos intensamente. Mas no momento em que esse amor gera fruto (Amélia engravida de Amaro), a paixão fica de lado e Amaro volta a prezar pela sua batina. Arranja uma forma de Amélia sair da cidade até o nascimento “do fruto”, e quando o menino nasce arruma uma cuidadora que na primeira oportunidade mata a criança. Amaro então foge desses problemas e consegue com o bispo uma transferência para Lisboa. Amélia é então apenas uma remota memória de pecados que nunca mais tornarão a vir à tona.

Amaro é um canalha! Um hipócrita! Esse livro é uma verdadeira crítica aos dogmas religiosos, não apenas da Igreja católica, mas de todas as seitas religiosas que impõem dogmas e cartilhas de conduta. O autor deixa claro que o poder da Igreja permite que seus sacerdotes estejam acima de qualquer lei ou costume, permite que eles façam o que bem entendem. Apesar de ter sido publicado no final do século XIX, ainda se mantém bem atual.

Ao pé dela, muito fraco, muito langoroso, não lhe lembrava que era padre: o Sacerdócio, Deus, a Sé, o Pecado ficavam embaixo, longe; via-os muito esbastidos do alto do seu enlevo, como dum monte se vêem as casas desaparecer no nevoeiro dos vales; e só pensava então na doçura infinita de lhe dar um beijo na brancura do pescoço, ou mordiscar-lhe a orelhinha.

Pela história e pela crítica que faz o livro é muito bom, mas é chato, extremamente chato. Se você tem paciência de ler longas descrições de lugares e pessoas, conversas tolas e vazias, longos pensamentos que giram ao redor de nada para chegar a lugar nenhum, então esse livro é para você. Lá pela página 50 eu já não via a hora dele acabar. Fiquei até o final na esperança de que algo acontecesse com Amaro, mas me decepcionei profundamente. Pode ser que outros livros do autor tenham outra pegada, mas eu vou demorar bastante para ler qualquer coisa de Eça de Queiroz.

Que livro chato!

Foi feita uma adaptação para o cinema em 2003, e você pode ver o trailer aqui.

Na imagem destacada o quadro de Paula Rego, chamado O Embaixador de Jesus, de sua série de pinturas O Crime do Padre Amaro.

Até a próxima!

 

 

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11 comentários

    1. Eça de Queiroz faz longas referências às cidades nas quais a história se passa, isso torna a leitura um pouco enfadonha. Mas concordo que deve ter sido escandaloso. Aliás, até nos dias atuais uma história como essa seria escandalosa.
      Abraço.

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  1. Essa é uma das características dos romances de Eça de Queiroz.
    Em “Os Maia” a relação incestuosa entre Carlos e a irmã é o que faz o enredo girar. Por essa razão o romance “Os Maia”, é considerado o primeiro romance realista português e na minha opinião, o melhor do Sec XIX.
    “O Primo Basílio” é uma sátira moralizadora dos costumes da burguesia média de Lisboa da época… Em “A Capital” o alvo é a classe politica e no “Mandarim” uma das sua obras mais flagrantes…
    Por essa e outras razões que tenho uma “adoração” pela obra de Eça de Queiroz.

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    1. Muito interessante as suas colocações. Realmente não conhecia o teor das outras obras do autor. Infelizmente a narrativa não me cativou e terminar a leitura foi penoso, apesar do enredo ser muito bom. Talvez com o tempo eu me ponha o desafio de lê-lo novamente, ainda mais agora com as suas informações.
      Muito obrigado.
      Abraço.

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      1. Se ainda não leu muitas obras de Eça e deseja ler, posso aconselhar, se me permite, “Os Contos” (reunidos postumamente em 1902). É uma leitura mais “leve” que os romances e muito útil para conhecer um tipo de escrita único e muito próprio. Bjs

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  2. Um dos meus favoritos! Li no ensino médio, tenho na estante e acho incrível como essa obra consegue denunciar de maneira contundente os problemas que o misticismo e a educação religiosa provavelmente promoviam numa sociedade regida por hipocrisias… ♡

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