Casagrande e Seus Demônios #58

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Autor: Walter Casagrande Jr. e Gilvan Ribeiro
Editora: Globo
Ano: 2013
Páginas: 242

Há muitas armadilhas no caminho do dependente químico, que precisa de preparo e muita determinação para não recair no vício. Qualquer cena que remeta ao uso de cocaína ou heroína pode desencadear o processo cerebral relacionado ao prazer e instigar o ex-usuário a voltar à ativa.

A vida de um grande esportista, de qualquer modalidade, é repleta de vitórias e derrotas, de altos e baixos. Nos melhores momentos os amigos estão por perto, a família é unida e todas as portas se abrem, as boas e as más. Mas nos piores momentos, poucos são aqueles que se mantêm próximos. Essa é a vida da maioria dos grandes atletas, e essa foi a vida de Walter Casagrande Jr., atacante da Seleção Brasileira e de alguns dos principais clubes do Brasil, nas décadas de 1980 e 1990.

Nascido na cidade de São Paulo, Casagrande cresceu durante os anos finais da Ditadura Militar e se tornou profissional no Corinthians justamente durante a abertura política que se movimentava para por termo ao regime de exceção. Casagrande teve papel ativo no movimento das Diretas Já, aproveitou com muita energia o surgimento do rock nacional, acompanhou de perto as mudanças nos costumes da sociedade brasileira dos anos 1980. Fez sucesso ao jogar na Europa, adquiriu e aumentou sua fama e sua popularidade. Mas esse livro não é sobre o atleta Casagrande, é sobre o viciado em cocaína e heroína Walter.

As portas do inferno estavam abertas. Os demônios invadiam a casa, sem qualquer cerimônia, andavam pelos cômodos, apareciam nas paredes, sentavam-se no sofá. Como se a presença deles ali fosse algo natural. Eram feios, muitos feios, horrendos mesmo.

As drogas entraram na vida de Casagrande da mesma forma como entram na vida de muitos jovens: uma mistura de álcool, cigarro, amigos e maconha. Em pouco tempo a cocaína era uma realidade e o desejo de ir além, de quebrar barreiras, o levou à heroína e a pelo menos 3 overdoses quase letais.

O adolescente alto, cabeludo, roqueiro e revoltado logo ganhou espaço em seu clube do coração, o Corinthians. Sem nunca abandonar seu amigos de infância, Casagrande iniciou um período de transição em sua vida nos moldes da transição política no Brasil. Tudo passou a ser permitido. A fama e o dinheiro trouxeram para Casagrande a liberdade que ele tanto queria, e com ela todos os prazeres que a vida pode oferecer. E é nesse momento que a cocaína entra em sua vida.

Foge ao estereótipo do viciado que, depois de ser flagrado e se submeter a tratamento, passa a reproduzir frases feitas e a rezar uma cartilha rasa e pré-fabricada. Jamais caiu na tentação covarde de atribuir seus tropeços às chamadas más companhias, tão citadas nesses casos. Ao contrário, mostra coragem para assumir seus erros e buscar corrigi-los. Sabe que é senhor do destino, não uma peça manipulada no tabuleiro de xadrez.

Casagrande formou família: casou e teve três filhos. Tudo regado a muita droga. O ponto de virada para Casagrande foi quando ele teve a sua segunda overdose em casa e tinha apenas o seu filho mais velho para lhe ajudar. Foi parar no hospital e o problema do vício finalmente foi informado à esposa e aos filhos. Mas a iminente separação da esposa e o afastamento dos filhos foi algo muito pior para Casagrande. Completamente drogado o ex-atleta e já comentarista da Rede Globo se envolveu em um acidente de carro, teve o seu vício exposto e com a permissão do filho mais velho e da sua mãe, Walter Casagrande foi internado em uma clínica de reabilitação e ficou 1 ano em tratamento.

Hoje Casagrande tenta levar uma vida normal. Mas ele tem consciência de que é um potencial viciado em eterna luta contra as drogas. E essa é a maior lição que Casagrande tenta passar, as drogas não escolhem pelo status social ou pelo dinheiro, as drogas destroem tudo ao redor. O livro conta um pouco de sua história, dos momentos felizes do atleta e dos momentos mais sombrios do homem.

Na imagem destacada o quadro de Salvador Dali, intitulado The Face of War, de 1940.

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Até a próxima!

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4 comentários

  1. Achei emocionante quando ele declarou que conseguiu ficar sóbrio nesta Copa do Mundo. É importante ver uma pessoa sendo tão sincera em relação a seus vícios, mesmo que seja difícil falar, pois certamente deve inspirar outros que passam pelos mesmos problemas

    Curtido por 1 pessoa

    1. É verdade. Casagrande teve muitos problemas para aceitar a sua condição de dependente químico, mas descobriu que esse é o passo fundamental para qualquer tipo de tratamento. Também achei muito emocionante as palavras dele ao vivo, no final da copa.
      Obrigado.

      Curtido por 1 pessoa

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