Holocausto Brasileiro #59

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Autor: Daniela Arbex
Editora: Geração
Ano: 2013
Páginas: 230

Os homens vestiam uniformes esfarrapados, tinham as cabeças raspadas e pés descalços. Muitos, porém, andavam nus. Luiz Alfredo viu um deles se agachar e beber água do esgoto que jorrava sobre o pátio e inundava o chão do pavilhão feminino. Nas banheiras coletivas havia fezes e urina no lugar de água. Ainda no pátio, ele presenciou o momento em que carnes eram cortadas no chão. O cheiro era detestável, assim como o ambiente, pois os urubus espreitavam a todo instante.

Daniela Arbex faz um trabalho primoroso nesse livro. Através de uma pesquisa séria, a autora entrou no Hospital Psiquiátrico de Barbacena-MG, chamado de Colônia, e desnuda todo o horror que teve lugar dentro daqueles muros. Os relatos são chocantes, as fotos impactantes. É difícil acreditar que tamanha barbaridade aconteceu no Brasil, com a anuência de consecutivos governos estadual, municipal e federal, com o apoio da Igreja Católica e de renomadas Universidades Públicas, além da participação de um corpo médico permanente.

Marlene foi surpreendida pelo odor fétido, vindo do interior do prédio. Nem tinha se refeito de tamanho mal-estar, quando avistou montes de capim espalhados pelo chão. Junto ao mato havia seres humanos esquálidos. Duzentos e oitenta homens, a maioria nu, rastejavam pelo assoalho branco com tozetos pretos em meio à imundície do esgoto aberto que cruzava todo o pavilhão.

Através de depoimentos de ex-funcionários conhecemos os meandros do Colônia. O despertar às 5 horas da manhã, a ida para o pátio mesmo nos dias mais frios, a péssima alimentação. Todas as manhãs, o capim que era  colocado no chão para que os internos pudessem dormir era retirado para secar, e todos os dias pelo menos um corpo era encontrado sem vida. Aos pacientes mais violentos o tratamento era mais desumano, banhos frios, mesmo no inverno, e o terrível eletrochoque. Se o interno não era diagnosticado com algum distúrbio psicológico na entrada do Colônia, certamente adquiria algum durante o período de internação.

Para piorar o quadro, que por si só já é trágico, a autora nos conta a história de diversos pacientes, homens e mulheres, que foram levados para o Colônia sem qualquer tipo de problema psicológico. Mulheres que eram internadas porque engravidaram solteiras, porque eram amantes de pessoas importantes, porque haviam sido estupradas e estavam grávidas, por brigas na família. Homens que eram internados porque eram tristes e não se misturavam com os demais, por desentendimentos familiares, por perseguições políticas, e tantos outros motivos que chocam pelo absurdo, como autistas.

A semelhança com os campos de concentração nazista não ficava apenas dentro dos muros, havia uma estação de trem em Barbacena que se tornou a principal porta de entrada para todos os enviados ao Colônia. O “Trem de Doido”, como ficou conhecido, guarda em sua história a morbidez e o absurdo de sua existência. Excluídos sociais foram enviados ao Colônia de toda parte do Brasil através desse trem.

Começara a trabalhar num campo de concentração travestido de hospital. Apesar de estar tomada pela indignação, sentiu-se impotente diante da instituição tradicional que mantinha, com o apoio da Igreja Católica, as portas abertas desde 1903. A estimativa é que 70% dos atendidos não sofressem de doença mental. Por isso, o Colônia tornou-se destino de desafetos, homossexuais, militantes políticos, mães solteiras, alcoolistas, mendigos, negros, pobres, pessoas sem documentos e todos os tipos de indesejados, inclusive os chamados insanos.

A conivência de uma parte da classe médica só não foi maior que uma outra parcela de médicos que lutou e trabalhou para transformar o tipo de tratamento que era dado no Colônia. Lutaram para que a lei anti-manicomial fosse aprovada e depois de tantos anos, finalmente aqueles que possuem algum distúrbio mental podem ser tratados como seres humanos.

Os relatos do dia a dia do Colônia são nauseantes, e são agravados pelo fato de que é tudo verdade, aquelas situações realmente aconteceram, com pessoas reais que realmente morreram de frio, de fome, de diarreia, de inanição. Enfim, um livro para aqueles de estômago e corações fortes.

Dentro do hospital, apesar de ninguém ter apertado o gatilho, todos carregam mortes nas costas.

Na imagem destacada o quadro de Antoine Wiertz: Hunger, Madness and Crime.

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Até a próxima!

 

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12 comentários

    1. É um livro realmente muito bom, que vale muito a pena ler. Mas que traz junto um turbilhão de emoções. Eu confesso que fiquei mal, principalmente por traçar um paralelo com o campos de concentração nazistas e perceber que Barbacena “é logo ali”.
      Abraço.

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  1. O acompanho há mais de um ano Gabriel. Sempre leio seus textos que contribuem bastante para ampliar conhecimentos e apontar para outros. Sou natural de Barbacena…morei no chamado hoje Bairro Colônia Rodrigo Silva, aproximadamente, uns três km de um destes ‘hospitais’… a casa em que morávamos era isolada do ‘bairro’… distante, uns 1.500 metros….não tinha energia elétrica, água encanada, banheiro, enfim… moramos nela, dos meus 6 aos 10 anos. Na condição de filho mais velho numa família de mais 4 (pai analfabeto e mãe semianalfabeta)…vivíamos marginalizados em todos os sentidos… um pesadelo. Vez ou outra um ‘retardado’ fugia do ‘hospital’ e, chegava lá em casa. Nos trancávamos dentro da casa à espera que fosse embora. O medo era companheiro constante.À noite, era um verdadeiro terror, principalmente, quando meu pai não estava… trabalhava muitas vezes até 20/21 horas. Já comecei a escrever meus ensaios poéticos sobre o esta fase… aos poucos eles aparecerão no meu blog. Desculpe-me. este escrito tão grande, mas, é uma maneira de trazer à memória aquilo que não se pode esquecer, para nunca mais acontecer… fraterno abraço.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Seus comentários sempre abrilhantam meus textos Estevam. Essa realidade pela qual vc e tantos outros brasileiros passaram, infelizmente ainda faz parte da realidade de muitos. O que me chamou a atenção no relato literário foi a forma de tratamento dos “doidos”: talvez os animais tivessem mais sorte. Muito triste.
      Abraço fraterno.

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