Mussolini #62

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Autor: Pierre Milza
Editora: Nova Fronteira
Ano: 2011
Páginas: 271

 

 

 

 

“Mussolini estava consciente do poder de sedução que podia exercer tirando proveito de certos traços de sua aparência. Para começar, seu olhar sério, naturalmente voluntarioso, com dois olhos penetrantes e negros que pareciam imensos, ativos, sempre prontos para saltar das órbitas. O que mais impressionava seus interlocutores era seu olhar, e raros foram os que, no relato de seu primeiro encontro com o Duce, deixaram de mencionar-lhe o magnetismo.

Em 29 de julho de 1883 nascia Benito Mussolini, principal criador do fascismo na Itália. Mussolini viveu os seus primeiros anos de vida numa pequena vila na província de Predappio, numa família humilde. Seu pai, Alessandro Mussolini, era um ferreiro e um fervoroso socialista, e sua mãe, Rosa Maltoni, uma humilde professora primária. Lutou na Primeira Guerra Mundial e logo após fundou o Partido Nacional Fascista. Esse livro conta a história do homem que levou a Itália à ruína após a Segunda Guerra Mundial.

Era um homem complexo e contraditório. Sua obsessão pelo detalhe não o impedia de, dia após dia, tratar de um sem-número de questões, de ler dezenas de documentos fazendo as devidas anotações e de ter a percepção global dos problemas de governo.

O livro inicia sua narrativa na década de 1930, ou seja, com o regime fascista já consolidado e seus principais inimigos presos ou mortos. Mussolini exala poder e megalomania em seu suntuoso Palazzo Venezia com salas e escritórios com mais de 10 metros de altura. Tudo ao redor do Duce é grandioso para impressionar quem o visita. A atração que exerce nas pessoas ao seu redor é impressionante, sua postura altiva com o queixo proeminente e seu grande crânio desnudo lançam em seus interlocutores a impressão de que estão diante de um homem único.

O personagem que interpreta impressiona não apenas seus companheiros, mas também os chefes de estado europeus e mais ainda as mulheres. Mussolini é um amante inveterado. Casado com Rachele, teve 6 filhos. Mas seus inúmeros casos extraconjugais serviram como comprovação de sua virilidade que era relacionada com a masculinidade dos imperadores romanos. O caso mais famoso foi o romance com Claretta Petracci, que teve o mesmo destino de seu Duce.

O fascismo se beneficiou de circunstâncias ligadas à guerra, aos graves problemas econômicos que a acompanharam e seguiram, ao contágio da revolução bolchevique e ao medo social que dela resultou.

No campo político Mussolini queria inflamar o sentimento nacional e retomar a glória e a importância do antigo Império Romano. Aliado ao pensamento de elevar a Itália, Mussolini empreendeu uma série de políticas de desenvolvimento econômico, mas também queria manter o seu poder e por isso usou a propaganda e a força para disseminar a ideia de retomar antigos territórios perdidos, como a Etiópia e a Albânia. Após a sua aliança com Hitler, Mussolini viu o seu país ser envolvido em uma guerra total com outras potências. Mais fraca militarmente do que a Alemanha, a Itália logo colecionou fracassos como as derrotas humilhantes no Norte da África e nas estepes Russas.

É importante lembrar que até a aliança com Hitler, os judeus se consideravam seguros na terra do Duce. Mussolini não pensava como Hitler sobre a questão judaica e até mantinha estreitas ligações com setores sionistas italianos. Contudo, Mussolini só aparentava força de personalidade. Quando estreitou sua aliança com Hitler, Mussolini se mostrou completamente subserviente, acatando as principais linhas de comando alemãs e se tornando apenas um marionete nas mãos do ditador alemão. Mesmo sendo salvo por soldados alemães, foram exatamente eles que entregaram Mussolini e Claretta para os partigiani (membros da milícia italiana contrária ao fascismo). Morreu em 28 de abril de 1945 e teve seu corpo pendurado em um posto de gasolina na Piazza Loreto em Milão.

Prisioneiro de sua megalomania, mas certo de cumprir uma missão que passa agora pelo fragor das armas, é como César de capacete que o Capo da Itália fascista se dirige à multidão romana vinda em massa para ouvi-lo anunciar, do balcão do Palazzo Venezia, a iminência da ofensiva fascista.

O que me chamou a atenção no livro foi o meio em que Mussolini surgiu. Um país saído de uma guerra humilhado e cheio de dívidas. Uma sociedade ávida por um salvador da pátria. Após a subida ao poder, Mussolini encontrou vozes de amizade de diversos setores da sociedade. Governou mesmo com alguma tranquilidade apesar de ser chefe de um Estado totalitário que cultuava a personificação do poder. Uma sociedade doente que produziu um remédio com efeito placebo chamado fascismo. Me assusta o que podemos esperar de nossas próprias eleições. Abaixo um dos últimos discursos do Duce, já debilitado de saúde e sapiente de seu destino:

A morte se tornou amiga, não me apavora mais. Para mim, só se abrirão as portas da morte. E é até justo. Errei e pagarei, se esta pobre vida ainda paga alguma coisa. Nunca errei quando segui meu instinto; sempre, quando obedeci à razão. Sou responsável tanto pelo bem que fiz, que o mundo não poderá negar, quanto por minhas fraquezas e minha deposição. Sim, minha senhora. Acabei. Minha estrela já se pôs. Trabalho e me esforço, embora saiba que tudo é só uma farsa. Espero o fim da tragédia e não me sinto mais ator, sinto-me o último dos espectadores.

Uma biografia que alerta para os males que uma sociedade pode produzir.

Imagem destacada o quadro Ancient Roman Ruins  do pintor Giovanni Paolo Panini.

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Até a próxima!

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