Sidarta #63

P_20181130_151758_HDR_1.jpgAutor: Hermann Hesse
Editora: Folha de São Paulo
Ano: 2003
Páginas: 124

Um único objetivo surgiu diante de Sidarta; o objetivo de tornar-se vazio, vazio de sede, vazio de desejos, vazio de sonhos, vazio de alegria e pesar. Exterminar-se distanciando-se de si mesmo; cessar de se um eu; encontrar sossego, após ter evacuado o coração; abrir-se ao milagre, com o pensamento desindividualizado – eis o que era o seu propósito.

Hermann Hesse nasceu em 1877 no seio de uma família muito religiosa, filho de pais missionários protestantes, contudo recusou a religião, ainda adolescente, rompeu com a família e emigrou para a Suíça em 1912. Travou contato com a espiritualidade oriental a partir de uma viagem à Índia em 1911 e com a psicologia analítica por meio de um discípulo de Carl Jung, em decorrência de uma crise emocional causada pela eclosão da Primeira Guerra Mundial. Em 1946 recebeu o Prêmio Goethe e, passados alguns meses, o Nobel de Literatura “por seus escritos inspirados que, enquanto crescem em audácia e penetração, exemplificam os ideais humanitários clássicos e as altas qualidades de estilo”. Esse é o primeiro livro que leio de Hesse, e fiquei maravilhado.

O livro conta a história de Sidarta, um jovem indiano filho de um brâmane, a mais alta casta religiosa do país. Criado desde muito cedo nos preceitos de Brama, um Deus Hindu considerado a representação da força criadora ativa no universo. Através de uma série de ritos e orações, Sidarta logo se sobressai na educação brâmane e abre um futuro de ensinamentos e uma busca pela eterna felicidade. Mas algo dentro de si se inquietava e logo ele percebeu que a felicidade e a consciência da existência não estava ali.

Mas a si mesmo Sidarta não se dava alegria. Para si, não era nenhuma fonte de prazer. Enquanto passeava pelas sendas rosadas do figueiral, enquanto se mantinha sentado na penumbra azulada do bosque da contemplação, enquanto abluía o corpo no cotidiano banho expiatório ou fazia sacrifícios rituais no mangueiral envolto em sombras profundas, fazendo gestos de primorosa correção, despertando amor em toda gente, deliciando a todos, não sentia, ainda assim, nenhuma satisfação em sua própria alma.

Sidarta e seu fiel amigo Govinda partem então para junto dos Samanas, um povo nômade religioso que buscava através do jejum e da meditação a desindividualização do ser em busca do interno eu, aquele que abre as portas para o conhecimento do universo. Sidarta então jejuou por muitos dias, meditou por muitos dias e apesar de estar vestido apenas por uma tanga velha e ter pele e cabelos queimados pelas intempéries do clima Sidarta conseguiu o que pretendia, tornar-se vazio. Vazio de desejos, de paixões, de vontades. E poder entrar em contato com a força que rege o universo, com o eu interior que ele conhece por Átman.

Excelentes eram os sacrifícios e as invocações dos Deuses – mas que lhe adiantava tudo isso? Propiciariam os sacrifícios a felicidade? E quanto aos deuses: foi realmente Prajapati quem criou o mundo? E não o Átman? Ele, o único, o indivisível? Não eram os deuses figuras criadas da mesma forma que tu e eu, perecíveis, dependentes do tempo? Seria, portanto, bom e acertado oferecer sacrifícios aos deuses?

Depois de muito tempo juntos aos Samanas, Sidarta e Govinda encontraram monges que seguiam Gotama, o Buda, o Venerável. Aquele que estava tecendo uma rede de meditação por todos os cantos em que pisava através das suas palavras de amor, bondade, respeito e sabedoria. Govinda decide então seguir Gotama, mas Sidarta ao ter com Buda, revelou o desejo de buscar o conhecimento que almejava através do contato com o homem comum. O Venerável Buda, diz a Sidarta que quem muito busca, nada encontra, posto que a busca cega os olhos para o que existe ao redor. Mas Sidarta quis ir ter com os homens mesmo assim.

Se o mundo é bom ou mau, se a vida em seus confins é sofrimento ou prazer, essa pergunta pode permanecer sem resposta. Pode ser que aquilo tenha pouca importância. Mas a unidade do mundo, o nexo existente entre todos os acontecimentos, o fato de todas as coisas, tanto as grandes como as pequenas, estarem incluídas no mesmo decorrer, na mesma lei das causas, do devir e do morrer … tudo isso ressalta luminosamente na tua excelsa doutrina.

E Sidarta vai ao inferno. Depois de longos anos entorpecido pelo jogo, pelas mulheres, pelo comércio, pelo dinheiro, pela bebida e pelos prazeres e desejos do mundo, Sidarta sonha com um lindo pássaro preso em uma gaiola de ouro. Ao aproximar-se da gaiola, Sidarta percebe que o pássaro está morto. Ele se dá conta que está morto por dentro, que todas as suas angústias são resultado do afastamento do verdadeiro conhecimento, aquele que traz paz pois versa sobre a essência do universo e da existência dos animais na realidade.

Ao observar aquela existência infantil ou animalesca que levavam os seres humanos, ao mesmo tempo adorava e desprezava tal estilo de vida. Via como labutavam, sofriam, envelheciam por causa de assuntos que não lhe pareciam valer tamanho esforço e como se empenhavam em obter dinheiro, prazeres minúsculos, honrarias insignificantes. Ouvia como se censuravam e se insultavam mutuamente, como choravam suas dores.

Sidarta então busca redenção e se despoja de suas honrarias, vestimentas e riquezas. Novamente vestido apenas com uma tanga esfarrapada, Sidarta reencontra um velho balseiro que transporta as pessoas de um lado para o outro de um grande rio no meio da selva. Ele então se dá conta de que o jovem Sidarta ainda está vivo dentro daquele velho e enrugado corpo. E que para ser feliz, não basta ter felicidade, basta ser.

As palavras deturpam sempre o sentido arcano. Todas as coisas alteram-se logo que lhes pronunciamos o nome. Então se tornam levemente falsas e ridículas.

Uma leitura simplesmente instigadora. Sidarta nos ensina, sem a pretensão de fazê-lo, que nada somos e nada temos, e que as coisas ao nosso redor são o que são sem que para isso tenhamos que nomeá-las ou rotulá-las. Trazemos dentro de nós a capacidade de sermos o tudo e o nada, o claro e o escuro. Somente quando nos dermos conta de que o universo não apenas está em nós, mas que nós somos o universo, somente então teremos a serenidade de Sidarta para aceitar nossa insignificância e desapegar de tudo o que nos amarra nesse mundo de sombras. Somente quando suplantarmos a mentira de nossas vidas, poderemos ver o desvelamento da verdade.

Não há melhor maneira de começar um novo ano.

Feliz Ano Novo!!

Na imagem destacada o quadro The Family Happiness, do pintor Pompeo Massani.

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Até a próxima!

 

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