Memorial de Aires #64

Autor: Machado de Assis
Editora: Ática
Ano: 1985
Páginas: 135

“Tudo poderia existir na mesma pessoa, sem hipocrisia da viúva nem infidelidade da próxima esposa. Era o acordo ou o contraste do indivíduo e da espécie. A recordação do finado vivia nela, sem embargo da ação do pretendente; vive com todas as doçuras e melancolias antigas, com o segredo das estreias de um coração que aprendeu na escola do morto. Mas o gênio da espécie faz reviver o entinto em outra forma, e aqui lho dá, aqui lho entrega e recomenda. Enquanto pôde fugir, fugiu-lhe.”

Joaquim Maria Machado de Assis é considerado por muitos críticos, estudiosos, escritores e leitores um dos maiores senão o maior nome da literatura do Brasil. Escreveu em praticamente todos os gêneros literários, sendo poeta, romancista, cronista, dramaturgo, contista, folhetinista, jornalista e crítico literário. E quem nunca foi “obrigado” a ler Machado de Assis quando jovem, na escola? Confesso que ouvir alguém dizer “Dom Casmurro” me assusta até hoje. Um português difícil de entender, uma história “nada a ver”, e por aí vai. Contudo, me coloquei esse desafio de fazer uma releitura de Machado de Assis à luz da minha experiência de vida e de leitor. E preciso dizer que é um bela leitura. Não comecei por Dom Casmurro para não forçar a barra, mas “Memorial de Aires” fica como uma porta aberta para ler outras obras de Machado de Assis. Espero que gostem.

Esse livro é um diário, na verdade um período de pouco mais de um ano, do Sr. Aires, sexagenário que retorna ao Rio de Janeiro depois de se aposentar do serviço de diplomata, no qual serviu por toda uma vida. Ao retornar à sua residência no Catete, Aires retoma as amizades que ficaram e acompanha ao longe a situação do Império. Esse livro se passa entre os anos de 1888 e 1889.

A vida, mormente nos velhos, é um ofício cansativo.

Aires então reencontra com sua irmã Rita e com o casal Aguiar e D. Carmo. Além disso, uma bela mulher chama a sua atenção: Fidélia, viúva do Sr. Noronha. E logo uma aposta se faz entre Aires e Rita: será que a jovem viúva casará novamente? Aires assim aposta, e quer que seja com ele. As coisas parecem se encaminhar bem para Aires, uma vez que Fidélia é como uma filha para o casal Aguiar e sempre que pode janta na casa destes no Flamengo. Aqui vale citar o cotidiano da cidade do Rio de Janeiro no final do século XIX que o autor pincela com doses homeopáticas, entre um jantar e outro. Tudo pelas palavras escritas por Aires em seu diário.

Ao vê-la agora, não a achei menos saborosa que no cemitério, e há tempos em casa de mana Rita, nem menos vistosa também. Parece feita ao torno, sem que este vocábulo dê nenhuma ideia de rigidez; ao contrário, é flexível. Quero aludir somente à correção das linhas, – falo das linhas vistas; as restantes adivinham-se e juram-se. Tem a pele macia e clara, com uns tons rubros nas faces, que lhe não ficam mal à viuvez. Foi o que vi logo à chegada, e mais os olhos e os cabelos pretos; o resto veio vindo pela noite adiante, até que ela se foi embora. Eu, depois de alguns instantes de exame, eis o que pensei da pessoa.

Mas há outro no caminho de Aires, o jovem Tristão. Tristão é o filho que o casal Aguiar não teve, mas que passou a morar em Portugal. Para o azar de Aires, Tristão resolveu voltar para uma visita justamente no momento em que Fidélia se aproximava mais da família Aguiar. O encontro de jovens corações livres possui uma força que é difícil combater. Depois de alguns encontros e jantares, Tristão e Fidélia decidem casar e se mudar para Portugal, onde Tristão se tornará Deputado. Para Aires ficou o prêmio de consolação, já que ele apostou com a irmã que Fidélia casaria novamente.

Mas o livro vai muito além da história de Aires. Acompanhamos um dos momentos mais importantes da história do Brasil. Aires comenta (de forma leve) a abolição da escravidão em maio de 1888, não se coloca a favor nem contra, apenas incrédulo com a coragem do governo imperial em tomar tal ação, e com um leve toque de crítica ao relatar uma conversa com um grande fazendeiro que estava alforriando seus escravos antes da lei, por achar que os mesmos estavam lá por que gostavam e que com ou sem lei, eles ficariam na fazenda trabalhando para ele.

Se alguém lesse achar-me-ia mau, e não se perde nada em parecer mau; ganha-se quase tanto como em sê-lo.

Outro nuance interessante do livro é a forma como a velhice é tratada. Aires, já sexagenário, acredita ainda em sua virilidade, mas sabe que não é páreo para um jovem como Tristão, principalmente pela consciência de suas dores e do mal humor que sempre o acompanham. Além disso, com a partida de Fidélia e Tristão para Portugal, o casal Aguiar fica novamente sozinho e a melancolia que os acompanha no final do livro é marcante. O livro deixa algumas reflexões que gostei bastante. Todos ficaremos velhos, pois como disse Shakespeare: “A velhice é inevitável, mas a sabedoria é um ganho”, Aires aproveitou sua juventude para se dedicar àquilo que gostava, e agora aproveitava sua velhice com o que ela lhe proporcionava: dores, mal humor, amizades que morriam e o tempo que escorria por entre os seus dedos.

Na imagem destacada o quadro: Head of an Old Man, do pintor Guercino.

 

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Até a próxima!

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11 comentários

  1. Olha, eu gosto muito de Machado e comecei justamente por Dom Casmurro, para o vestibular. Segui com memórias póstumas e outros que agora não me recordo o nome. Um dia farei uma maratona Machadiana também e não esquecerei o Memorial de Aires! 😉

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