A Esfinge dos Gelos #66

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Autor: Júlio Verne
Editora: Centaur
Ano: 2013
Páginas: 418

 

 

 

 

O meu plano era algumas semanas de bom tempo nesta última ilha (Tristão da Cunha) e seguir dali para Connecticut. Eu, contudo, não esquecia a parte que o acaso se compraz em tomar nossos desígnios humanos, pois é sempre prudente, como já disse Edgar Poe: ‘contar com o imprevisto, com o inesperado, com a inconcebível, porquanto os fatos colaterais, contingentes, acidentais, fortuitos, não devem ser desprezados, nem também se deve deixar de considerar o acaso como base principal dum cálculo rigoroso’.

A história da conquista da Antártida é cheia de mistérios e uma boa dose de folclore. Até as primeiras descobertas científicas e geográficas do século XX, muitos navegadores já haviam se lançado para além do paralelo 64 Sul e suas histórias permearam o imaginário da humanidade por um bom tempo. Dessa forma, a Antártida não poderia deixar de ser cenário para a literatura do século XIX e Júlio Verne, famoso por livros que extrapolavam a imaginação humana em ambientes inóspitos (Vinte mil léguas submarinas; Da Terra à Lua; Viagem ao Centro da Terra) nos presenteia com essa aventura espetacular para o distante e inabitado continente antártico. Esse livro foi publicado em 1895.

Estamos em 1839 e somos leitores do diário do Sr. Jeorling, um americano viajante que está de passagem pelas Ilhas Kerguelen (um grupo de ilhas localizadas no extremo sul do oceano Índico). Com o objetivo de retornar para sua terra natal, Jeorling espera a chegada da escuna ‘Halbrane’ que após algumas paradas tem como destino o porto de Connecticut. Mas a história toma outro rumo quando a ‘Halbrane’ chega.

“Capitão Len Guy – Porque o itinerário da Halbrane não é nunca fixado de antemão. Ela sai para um porto e vai a um outro, conforme a vantagem que encontro nisso. Convém saber-se que não estou a serviço de nenhum armador. A escuna pertence-me em grande parte, e não tenho de receber ordens de ninguém a respeito de suas travessias.”

Havia um elo em comum entre o Capitão da Halbrane e nosso personagem. Jeorling conhecia a história “A Narrativa de Arthur Gordon Pym”, um livro real de Edgar Alan Poe, escrito em 1839, que conta a saga de Gordon Pym, capitão de um grande veleiro americano, após o motim e o massacre ocorridos em seu navio durante rota pelos mares do sul, e as terríveis aventuras da tripulação sobrevivente após seu resgate por uma escuna inglesa chamada ‘Jane’. Segundo a história, a ‘Jane’ era comandada por William Guy, o irmão desaparecido de Len Guy. Após passarem pela Ilha de Tristão da Cunha e chegarem às Ilhas Falkland, Len Guy e sua tripulação decidem partir para o sul em busca de seu irmão.

A bordo toda a marujada da ‘Halbrane’ e mais alguns novos marinheiros contratados nas Falkland e Jeorling. Tendo como base o livro de Poe e os registros da viagem (verdadeira) de James Weddell, a escuna deslizou pelos mares do sul no auge do verão e encontrou a misteriosa passagem por entre os grandes blocos de gelo que supostamente os levaria para um mar livre de gelo no interior do continente antártico. E como o extraordinário não tem limite, a narrativa de Poe ainda dizia sobre uma ilha habitada, chamada Tsalal, com uma tribo de peles negras, hostis a qualquer povo desbravador.

“Eis-me, pois, entregue às contingências duma aventura que, segundo todas as probabilidades, ultrapassaria em imprevisto as minhas anteriores viagens. Quem suporia isso de mim? Eu, porém, estava preso numa engrenagem que me arrastava para o desconhecido das regiões polares, esse desconhecido de que tantos exploradores intrépidos debalde têm tentado devassar os segredos! E, desta feita, quem sabe se a esfinge das regiões antárticas não falaria pela primeira vez a ouvidos humanos? Não esqueci, todavia, que se tratava unicamente duma obra de humanidade.”

Navegando sempre para o sul, a Halbrane se vê presa em cima de um imenso iceberg após um intenso nevoeiro. Com o princípio de um motim, o capitão Len Guy decide deixar os amotinados fugirem para não irem muito longe. Os que ficaram decidem então uma última manobra e conseguem sair do enorme bloco de gelo com um pequeno escaler e chegam à ilha Tsalal. Mas o que encontraram não estava em nenhum livro: a ilha estava arrasada, sem nenhum ser-humano vivo, apenas ossos e carcaças. Contudo, encontraram na ilha os ossos de Tigre, o cão que fazia parte da expedição de Arthur Gordon Pym e os ânimos melhoraram com a esperança de achar o irmão do capitão Len Guy.

Já bastante debilitados pela falta de alimentos, Jeorling e os poucos sobreviventes, ao buscar uma saída do mar interior antártico encontraram uma pequena ilha, e para surpresa de todos, William Guy morava nela. Jeorling nos conta ainda que com o objetivo de atravessar o mar antártico e chegar na Austrália, o pequeno escaler atravessou o polo magnético sul da terra que está marcado pela natureza com uma enorme esfinge de gelo com as nuances parecidas com a de um grande mastodonte. Neste ponto da viagem, encontram o cadáver de Arthur Gordon Pym para terem a certeza de que Poe estava certo.

Uma aventura sensacional que estas simples palavras não conseguem e não podem encerrar. Leitura recomendada se você gosta de uma grande aventura.

“Em todo caso, viagem que deve terminar e sem distrações, porquanto o inverno não tardará a mostrar o nariz vermelho, os lábios gretados e as mãos cobertas de frieiras.”

Na imagem destacada o quadro Arctic Whaler Homeward Bound Among the Icebergs, do pintor William Bradford.

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Até a próxima!

3 comentários

    1. Fiz sim. Normalmente quando leio algum livro que conta alguma viagem ou cita algumas cidades eu pesquiso por elas na internet. E esse livro foi especial pois ele conta uma aventura que passa por algumas ilhas do Atlântico e chega até a Antártida.
      Outro livro que me levou a um mapa mental muito legal foi Viagem ao Centro da Terra.
      Abraço.

      Curtido por 2 pessoas

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