Pulp #69

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Autor: Charles Bukovski
Editora: L&PM Pocket
Ano: 2011
Páginas: 176

“Era só um trabalho, o aluguel, a bebida, só esperando o último dia ou noite. Contando tempo. Que merda. Eu daria um grande filósofo, diria a todo mundo como somos tolos, zanzando por aí a sugar ar para dentro e para fora dos pulmões.”

Filho de um soldado americano e de uma jovem alemã, Charles Bukovski nasceu em 1920. Morando desde muito jovem em Los Angeles, conviveu com a pobreza escrevendo e embriagando-se. Foi internado diversas vezes por conta de hemorragias devido ao alto consumo de álcool e cigarro. Teve seu primeiro livro publicado aos 24 anos, mas precisou trabalhar em outros ofícios para se sustentar, como os 14 anos de trabalho nos Correios. É considerado o último escritor “maldito” da literatura norte-americana, devido ao teor de suas histórias.

Seus livros são extremamente auto-biográficos onde abundam temas e personagens marginais, como prostitutas, sexo, alcoolismo, ressacas, corridas de cavalo e pessoas miseráveis. Bukovski tem um senso de humor ácido, irônico e cáustico. “Pulp” é o último livro de Bukovski publicado. O autor morreu em 1993, aos 74 anos de idade. Se a vida de Bukovski teve um pouco do que esse livro traz, a vida dele foi, no mínimo, bem louca.

Eu precisava tirar férias. Precisava de cinco mulheres. Precisava tirar a cera dos ouvidos. Precisava trocar o óleo do carro. Tinha esquecido de apresentar a porra da declaração de rendimentos. Um dos meus óculos de leitura estava com o pino quebrado. O apartamento, cheio de formiga. Precisava limpar os dentes. Os sapatos estavam gastos no salto. Eu tinha insônia. O seguro do me carro vencera. Eu me cortava toda vez que me barbeava. Há seis anos não dava uma boa risada. Tinha tendência a me preocupar quando não havia nada com que se preocupar. E quando havia alguma preocupação real eu tomava um porre.

Nick Belane, detetive particular de Hollywood (nas palavras dele, o melhor), vivia uma vida insossa, divorciado 3 vezes, sem filhos, com uma ação de despejo nas costas, sem dinheiro, pois perdeu tudo nas apostas de corrida de cavalos. Acredita piamente que sua vida é uma merda, mas também sabe que tem coisa pior por aí. Mas em um dia quente de verão ele vê sua vida mudar. Uma mulher muito bonita, com curvas acentuadas entra em seu escritório em busca de ajuda. Seu nome: Dona Morte.

Dona Morte pediu para Belane encontrar e dar cabo de um tal de Celine, mas pelas contas de Belane, Celine já teria mais de 100 anos! Sendo loucura ou não, ele realmente encontra o tal Celine, que acaba morrendo atropelado. E com o caso solucionado, Dona Morte pede para Nick Belane encontrar o Pardal Vermelho. E esse Pardal Vermelho vai voltar até o final da história.

Entre uma dose de uísque com água e uma aposta Nick Belane foi procurado por Jack Bass, que pediu para ele seguir sua esposa, Cindy, pois ele acha que está sendo traído. Após ver a esposa de Jack, o pensamento de Belane é um só: “vou botar no rabo dela”.

Esperamos e esperamos. Todos nós. Não saberia que o analista que a espera é uma das coisas que faziam as pessoas ficarem loucas? Esperavam para viver, esperavam para morrer. Esperavam para comprar papel higiênico. Esperavam na fila para pegar dinheiro. E, se não tinham dinheiro, precisavam esperar em filas mais longas. A gente tinha que esperar para dormir e esperar para acordar. Tinha de esperar para se casar e para se divorciar. Esperar pela chuva e esperar pelo sol. Esperar para comer e esperar para comer de novo. A gente tinha de esperar na sala de espera do analista com um monte de doidos, e começava a pensar se não estava ficando doido também.

E quando a loucura em sua vida parecia estar no alto, Belane recebe a visita de Edgar Grovers, dono de uma funerária que pede para Belane se livrar de sua mulher. Quando Jeannie entra no escritório, Belane tem a sua primeira reação: fica excitado com o corpo daquela mulher. Nick Belane fica dividido em “botar no rabo” de Cindy e se livrar de Jeannie.

Mas Jeannie não é uma mulher qualquer, ela é uma alienígena que está em uma missão de colonizar a Terra com uma civilização espacial. E depois de tudo resolvido, à la Nick Belane, ou seja, passeando por todos os bares de Hollywood e resolvendo seus problemas regado a muito uísque e cigarro, ainda faltava o Pardal Vermelho. Mas o Pardal Vermelho era uma metáfora para a morte, e Nick Belane realmente o encontra depois de se envolver com agiotas.

Mas eu vicejava no perigo. Me deixava os ouvidos tinindo e o buraco do cu em biquinho. Só se vive uma vez, certo? Bem, com exceção de Lázaro. Pobre babaca, teve de viver duas vezes. Mas eu era Nick Belane. Só se anda uma vez na roda-gigante. A vida era para quem se arriscava.

O livro mostra uma vida real, sem frescura, sem mimimi. Nick Belane é um viciado em apostas, alcoólatra, fumante inveterado. Não se alimenta direito, não dorme direito, não transa, não tem amigos. Apesar de parecer distante, traços da vida de Belane nos rodeiam o tempo todo. A vida é dura, cheia de percalços, cheia de pensamentos ruins e bons que se digladiam em nossa mente em busca de espaço. Seria leviandade acharmos que somos bons o tempo todo, ou que aquele que parece feliz é assim o tempo todo. A beleza da vida é a imprevisibilidade. E esse livro é muito bom!

Na imagem destacada o quadro Man Smoking with an Empty Wine Glass, de Jan Miense Molenaer, de 1632-1634.

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Até a próxima!

 

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