Um Estudo em Vermelho #2

P_20181216_193259_MT_1.jpgAutor: Arthur Conan Doyle
Editora: Zahar
Ano: 2013
Páginas: 145

Um estudo em vermelho, hein? Por que não poderíamos usar um pouquinho do jargão da arte? O fio vermelho do assassinato corre através da meada incolor da vida, e nosso dever é desemaranhá-lo, isolá-lo, e expor cada centímetro dele.

Um estudo em vermelho foi publicado no anuário londrino Beeton’s Christmas Annual de 1887, após ser recusado por três editores. No ano seguinte, saiu em edição separada, com ilustrações de Charles Doyle, pai de Conan Doyle. Rotulado como “Reminiscências do Dr. John H. Watson”, o livro registra a primeira aparição pública de Sherlock Holmes e o famoso primeiro encontro entre o detetive e Watson, que passam a dividir a moradia na Baker Street, nº 221B, e é, por isso tudo, um livro histórico.

É muito interessante a forma como Watson descreve, sem muito entusiasmo, o seu primeiro encontro com Holmes. Com uma carga emocional grande devido às suas feridas adquiridas no campo de batalha, Watson busca apenas um local tranquilo para passar o resto de seus dias. Mas o magnetismo e a inteligência de Holmes se mostram logo no primeiro caso. Mas como é a primeira aparição do detetive, o autor se sente no dever de apresentar algumas características de Holmes:

Sua pessoa e aparência, por sua vez, eram tais que chamavam a atenção do mais superficial observador. Tinha certamente mais de um metro e oitenta e dois de altura, mas era tão excessivamente magro que parecia ainda mais alto. Seus olhos eram vivos e penetrantes, salvo durante aqueles intervalos de torpor a que aludi; e seu nariz fino e aquilino dava ao conjunto de sua expressão um ar de alerta e determinação. Também o queixo, proeminente e quadrado, indicava o homem decidido.

O caso em questão era um assassinato, aparentemente sem motivação e sem marcas. O corpo estava sendo analisado pela Scotland Yard, mas o caso parecia tão inexplicável que Holmes foi chamado para ajudar. Logo Watson descobre os métodos nada convencionais de seu companheiro:

Holmes não era um homem de convívio difícil. Tinha modos tranquilos e hábitos regulares. Raramente estava de pé depois das dez horas da noite, e invariavelmente já tinha tomado o desjejum e saído quando eu me levantava de manhã. Às vezes passava o dia no laboratório de química, às vezes nas salas de dissecação, e eventualmente em longas caminhadas, que pareciam levá-lo ao submundo da cidade. Nada podia superar sua energia quando dominado pelo impulso de trabalhar; vez por outra, porém, uma reação tomava conta dele, e passava dias a fio deitado no sofá da sala de estar, mal pronunciando uma palavra ou movendo um músculo, da manhã à noite.

Após outro assassinato, aparentemente sem nenhuma ligação, e quando a polícia se vê sem nenhuma pista do assassino, Sherlock Holmes coloca em ação o seu extraordinário cérebro e desvenda a trama. Mas para dar um tom mais plástico a tudo, manda chamar um fiacre (carruagem) e deixa algumas instruções à Watson, mas qual não é a surpresa de todos quando ele algema o cocheiro, de nome Jefferson Hope, e o prende pelo assassinato de Enoch Drebber e Joseph Stangerson. Como se trata das lembranças de Watson, o livro conta como e porque Hope seguiu as vítimas desde Salt Lake City, nos Estados Unidos, até Londres, com uma passagem por São Petersburgo.

Além disso, uma das passagens mais marcantes para mim desse livro, é quando Holmes responde à Watson porque não se importa se a Terra gira em torno do Sol ou da Lua, e porque o seu conhecimento sobre química é maior do que seu conhecimento sobre filosofia:

‘Entenda’, explicou ele, ‘considero que o cérebro de um homem é originalmente como um pequeno sótão vazio, que temos que encher com os móveis que escolhemos. Um tolo recolhe todo o tipo de trastes com que depara, de modo que o conhecimento que lhe poderia ser útil fica atravancado, ou na melhor das hipóteses misturado com muitas outras coisas, de modo que ele tem dificuldade em localizá-lo. O trabalhador competente, porém, é muito cuidadoso em relação ao que leva para o seu cérebro-sótão. Não guardará nada lá a não ser as ferramentas que possam ajudá-lo em seu trabalho, mas dessas tem grande sofrimento, e todas na mais perfeita ordem. É um erro pensar que o quartinho tem paredes elásticas e pode se expandir até qualquer medida. Acredite que chega uma hora em que, para cada novo conhecimento, você esquece alguma coisa que sabia antes. É da maior importância, portanto, não ter fatos inúteis expulsando os úteis.

E assim chegamos ao final do primeiro livro dessa epopeia sobre Arthur Conan Doyle, espero que gostem.

Na imagem destacada o quadro Mormons Visiting a Carpenter in the Countryside, de Christen Dalsgaard – 1856..

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Até a próxima!

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6 comentários

        1. Apesar de não gostar do ator, você vai gostar da série. Além de ser uma super produção inglesa, ela é bem fiel aos preceitos do detetive e consegue transportar o personagem para o século XXI.
          Se você conhecer as histórias originais, logo consegue identificar os episódios.
          Abraço.

          Curtido por 2 pessoas

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