A Comédia dos Erros #8

P_20181210_102014_MT_1.jpgAutor: William Shakespeare
Editora: LL Library
Ano: 2013
Páginas: 97

Drômio – Mestre, se fordes cear e houver probabilidade de tomardes sopa, muni-vos de uma colher comprida.
Antífolo – Por que, Drômio?
Drômio – Ora, porque quem come com o diabo precisa ter uma colher comprida.

Essa é uma peça de teatral do gênero farsa e comédia criada por Shakespeare. Como muitas peças de Shakespeare que têm origens em textos clássicos, esta não foge à regra e é construída a partir de Os Menecmos (Os Gêmeos), do comediógrafo romano Plauto. Shakespeare adapta e cria uma nova peça com novos elementos contemporâneos. Em A Comédia dos Erros, a história gira em torno de um par de gêmeos, os Antífolos e os Drômios de Siracusa e Éfeso.

Egeu, um comerciante de Siracusa, é condenado à morte em Éfeso por violar a proibição de andar a fronteira entre as duas cidades medievais. Enquanto é conduzido para sua execução, diz ao duque de Éfeso, Solino, que veio a Siracusa em busca de sua esposa e de seus filhos e servos gêmeos de quem fora separado há 25 anos por ocasião de um naufrágio. Dois dos gêmeos (um filho e um servo), que cresceram com Egeu, estão viajando o mundo em busca da metade faltante de sua família. No momento em que Egeu é preso, Antífolo e seu servo Drômio de Siracusa estão em Éfeso a procura de seus irmãos.

Antífolo – Por que motivo o Tempo é tão sovina de cabelo, quando é certo que este cresce com tanta liberalidade?
Drômio – Isso é benção que ele reserva aos animais; o que ele nega aos homens em cabelo, dá-lhes em inteligência.
Antífolo – E por esse motivo que muita gente é dotada de mais cabelo do que inteligência.

O que acontece então é uma grande confusão, digna das melhores esquetes humorísticas, que aliás é extremamente repetida vez ou outra. Quando os irmãos de Siracusa aparecem são tratados como se fossem os de Éfeso, e uma grande confusão é formada.

E Shakespeare destila um humor ácido com relação ao que o cerca. Esta passagem abaixo mostra como ele, um inglês do final do século XVI e início do XVII, e que nunca saiu da Inglaterra, via as outras nações europeias e até o que já se conhecia do Novo Mundo. Nessa passagem Drômio de Siracusa diz ao Antífolo de Siracusa as peculiaridades corporais de uma criada acima do peso e negra que está atrás de si:

Antífolo – Em que parte do seu corpo se encontra a Escócia?
Drômio – Descobri-la pela esterilidade: fica na palma das mãos.
Antífolo – Onde fica França?
Drômio – Na fronte, senhor, armada e em revolta, a guerrear contra os cabelos.
Antífolo – Onde fica a Inglaterra?
Drômio – Procurei as escarpas calcárias, mas não encontrei nada branco. No entanto, presumo que fique no queixo, pela umidade salgada que corre entre ela e a França.
Antífolo – Onde fica a Espanha?
Drômio – Por minha fé, não a vi; mas a senti pelo calor do hálito.
Antífolo – E as Américas? E as Índias?
Drômio – Oh, senhor! No nariz, inteiramente coberta de rubis, carbúnculos, safiras, inclinando a rica aparência para o hálito abrasador da Espanha, que envia armadas sucessivas de galeões para tomarem carga no nariz.
Antífolo – E a Bélgica e os Países-Baixos?
Drômio – Oh, senhor! Não olhei tão para baixo assim.

Além disso, o autor coloca na boca de seus personagens um pouco do pensamento de sua época, então alguns preconceitos estão bem marcados. Isso não diminui a obra, apenas nos lembra o quanto o mundo mudou e como algumas barreiras foram quebradas. Uma delas é a misoginia, uma vez que às mulheres são dados os menores papéis e suas personagens são sempre de uma simplicidade enorme, geralmente preocupadas com seus maridos e filhos e com o o pensamento voltado para o bem estar de sua casa. Além de coléricas pelo veneno do ciúme.

Com isso em mente, torna-se mais claro como Adriana, mulher de Antífolo de Éfeso busca matar o irmão de seu marido após tomá-lo como sendo seu próprio esposo. Mas ao se retirarem para uma Abadia, em busca de proteção, os irmão de Siracusa encontram proteção na Abadessa, que não permite que os perseguidores entrem.
Neste momento, Egeu está sendo levado para a morte pelo Duque, mas ao encontrar os irmãos de Éfeso os toma pelos de Siracusa. Mas quando todos são colocados frente a frente, todos os mal entendidos são resolvidos e uma surpresa ocorre. Quem não é a Abadessa senão a própria esposa sumida de Egeu que além de perder o marido no naufrágio teve os filhos roubados por quem os resgatou e desde então não tinha noticias deles.

As queixas venenosas de uma esposa ciumenta são de efeito mais nocivo do que dentada de cachorro louco.

Assim, um livro com um humor leve, que requer um pouco de atenção para não se perder no enredo, mas que vale muito a pena a leitura.

Na imagem destacada o quadro Jupiter and Antiope, Queen of Thebes, with their Twins Amphion and Zethos, de Vincent Sellaer – 1550.

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Até a próxima!

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