Os Médicos da Morte #72

p_20190208_084631_hdr_1-1376138657.jpgAutor: Philippe Aziz
Editora: Saída de Emergência
Ano: 2015
Páginas: 816

“Os mortos não falam!”

Esse livro deve ser visto como um documento histórico consagrado aos horrores da medicina nazista perpetrados durante a Segunda Guerra Mundial. Do contexto social e ideológico que permitiu corromper em absoluto o papel do médico, aos responsáveis pelos atos mais hediondos, esta é uma obra baseada em testemunhos de sobreviventes, confissões de médicos SS e em milhares de documentos que os nazistas não conseguiram destruir antes da derrota final. Ao longo de mais de 800 páginas o autor nos mostra o lado mais cruel de uma guerra, o lado mais cruel de um regime que impôs pela força sua vontade, o lado em que pessoas inocentes não apenas morreram sem motivos, mas sofreram sem motivos.

“A organização da medicina nacional-socialista, que não passou, na maior parte das vezes, de uma indústria da morte, foi fundada sobre princípios claros. A sua intenção primeira, o seu objetivo mais profundo era servir a Raça.”

As atrocidades cometidas em nome da Raça, seja nos campos de concentração, seja no campo de batalha, são por vezes conhecidas do público. Mas como funcionava essa máquina da morte? Basicamente o serviço de saúde da Alemanha nazista era comandada por médicos militares das fileiras da SS, a polícia do Estado comandada por Heinrich Himmler, e serviam aos propósitos de seu comandante. Assim, todos os médicos que assumiam responsabilidades dentro do Estado nazista tinham, necessariamente que, não apenas tomar ciência dos atos, mas ser totalmente coniventes e concordar com as diretrizes estabelecidas e os planos para colocar tudo isso em prática.

“Nos campos, os médicos SS abandonam todas as suas ambições terapêuticas. Para que servem? Todo aquele gado está, de uma maneira ou de outra, condenado à morte. Em Auschwitz, a ciência médica só serve para designar aqueles que ainda podem produzir trabalho. A sua única função oficial é a de seleção.”

O autor nomeia inúmeros médicos que estiveram na vanguarda das primeiras decisões sobre os presos políticos e os ‘indesejáveis’ do regime. Um deles é Karl Brandt, médico da comitiva de Hitler, que está sempre junto da cúpula do governo Nazista. É de sua responsabilidade tornar possível o programa de eutanásia. Já antes da guerra, os insanos e deficientes eram vistos como um estorvo, eram bocas inúteis a serem alimentadas. Brandt foi um dos que permitiu que milhares de deficientes, mentais e físicos, fossem assassinados a sangue fio, com uma injeção de morfina no coração. Além dele, vários outros médicos concordaram com o programa de eutanásia, sem nenhum peso na consciência.

“O ideal do médico nazi já não é ajudar o homem, mas ajudar a raça eleita, a raça ariana, a dominar as raças ditas inferiores. O juramento de Hipócrates está caduco.”

Além dele, outras dezenas de médicos mancharam suas mãos de sangue inocente nos campos de concentração. O autor traz em pormenores incontáveis experiências com presos. Uma das partes do livro é sobre o monstro de Auschwitz, Dr. Mengele. A frieza com que selecionava quem iria morrer nas câmaras de gás, quem teria uma sobrevida de trabalhos forçados e quem serviria para seus experimentos é abominável em qualquer ser humano, ainda mais em um médico. Já outros experimentos, contados em detalhes, trazem ao leitor um sentimento de vazio, pois é muito difícil ler os relatos e tentar esboçar algum pensamento. Ficamos apenas com a imensidão do vazio em nossa mente.

“Penso poder afirmar que cada moral depende de um princípio filosófico, e que cada princípio filosófico depende da sua época, da situação nela vigente e da escala de valores que essa época tenha imposto a si própria.”

Mas o livro não traz apenas o relato das atrocidades e o necessário julgamento e condenação desses médicos. O autor também levanta a legitimidade dos julgamentos que ocorreram no pós-guerra, com vários questionamentos que foram usados pela defesa dos acusados. Apesar de serem crimes indeléveis, que justiça nenhuma pode perdoar, vários fatos foram levantados que deixam, no mínimo, um momento de reflexão. São citados os experimentos feitos nos Estados Unidos e em outros países da Europa, com presos políticos antes da guerra com extensa documentação. Além disso, um questionamento que está na base de quase todos os médicos: o piloto que carregava a bomba atômica é um assassino?

Em minha opinião, considerando que dentro do universo médico da Alemanha nazista, apenas uma pequena parcela aceitou participar dos experimentos, todos eram assassinos, pois não há desculpa ou motivos para usar alguém que não pode se defender, em prol de qualquer que seja a intenção. São criminosos de guerra e precisavam ser punidos como tal. Alguns foram enforcados, outros fuzilados, alguns ficaram presos por décadas, mas o monstro Mengele inacreditavelmente conseguiu fugir. Esse é um livro obrigatório para se entender os experimentos nazista, pois o autor vai além do relatos dos experimentos, ele apresenta as mentes por trás de tais atrocidades. Um livro para corações fortes, mas indispensável.

Indico o filme clássico A lista de Schindler, de 1993.

Na imagem destacada o quadro Allegory of the Death, de Pietro Paolini – 1650

Até a próxima!

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