Ensaio Sobre a Cegueira #73

p_20190217_212702_1-1477227007.jpgAutor: José Saramago
Editora: Companhia das Letras
Ano: 1995
Páginas: 310

“É desta massa que nós somos feitos, metade de indiferença e metade de ruindade.”

José Saramago foi um escritor português ganhador do Prêmio Camões em 1995 e do Prêmio Nobel de Literatura em 1998. Com um estilo próprio, o autor escreveu inúmeros livros de grande destaque na literatura mundial, incluindo Ensaio Sobre a Cegueira, publicado em 1995. José Saramago foi conhecido por utilizar um estilo onde a vivacidade da comunicação é mais importante do que a correção ortográfica de uma linguagem escrita. Assim, utiliza frases e períodos compridos, usando a pontuação de uma maneira não convencional. Os diálogos dos personagens são inseridos nos próprios parágrafos que os antecedem, de forma que não existem travessões nos seus livros. Este tipo de marcação das falas propicia uma forte sensação de fluxo de consciência, a ponto do leitor chegar a confundir-se se um certo diálogo foi real ou apenas um pensamento.

“Ainda que seja evidente o muito que de nuvem há em Juno, não é lícito, de todo, teimar em confundir com uma deusa grega o que não passa de uma vulgar massa de gotas de água pairando na atmosfera.”

Acompanhamos a epidemia de uma cegueira branca na humanidade. Tratando dessa forma, o livro poderia muito bem estar nas prateleiras da sessão de ficção científica, se não fosse pelo tratamento ímpar dado pelo autor. Saramago consegue colocar o Homem no centro de sua reflexão, toma conta de seus anseios e angústias, acompanha suas dores e suas lutas diante de tão grande adversidade, e mesmo assim, esse livro não nomeia nenhum personagem. Parece que Saramago não nomeia seus personagens para não encerrá-los em si mesmos, para proporcionar que o leitor se veja no ‘primeiro cego’, no ‘velho da venda preta’, ou no ‘garoto estrábico’.

A cegueira branca acomete a humanidade aos poucos. Primeiro, em um motorista no trânsito, depois no médico que o examina e em todos os seus pacientes, até que uma massa de pessoas desesperadas se tornam, de uma hora para outra, cegas. As autoridades decidem então isolar os infectados em instituições abandonadas, e um grupo é levado para um antigo manicômio. Lá, divididos em alas, os cegos, passados os primeiros sustos e incertezas, iniciam o processo de se organizarem e constituírem ali o mínimo de civilidade. Mas como bem faz em tudo, o Homem falha miseravelmente quando o assunto é manter a civilidade.

“Tão longe estamos do mundo que não tarda que comecemos a não saber quem somos, nem nos lembrarmos sequer de dizer-nos como nos chamamos, e para quê, para que iriam servir-nos os nomes, nenhum cão reconhece outro cão, ou se lhe dá a conhecer, pelos nomes que lhe foram postos, é pelo cheiro que identifica e se dá a identificar, nós aqui somos como uma outra raça de cães, conhecemo-nos pelo ladrar, pelo falar, o resto, feições, cor da pele, dos olhos, do cabelo, não conta, é como se não existisse.”

Por mais incrível que pareça a mulher do médico é a única que ainda manteve a visão, mas ela mente sobre a sua condição para poder acompanhar seu marido. Mesmo enxergando, ela nada pode fazer diante do horror e da violência que acomete todos naquele manicômio. Um grupo do homens se apossa da comida e primeiro cobra os objetos de valor em troca da alimentação, e depois cobram as mulheres das alas para saciar suas vontades primitivas. O relato dos estupros coletivos me levou a querer pular as páginas, mas consegui manter a leitura apesar de sentimentos angustiantes terem invadido minha cabeça.

Eles finalmente conseguem fugir do manicômio depois de um incêndio, apenas para descobrir que o mundo todo havia ficado cego e que a barbárie tinha tomado conta da humanidade. A busca por água e comida se torna o motivo de sobrevivência da humanidade e o pequeno grupo que acompanhamos sofre e suporta muitas adversidades. Tentam manter um pouco de civilidade através de gestos simples, como um banho de chuva, e jantar sentados à mesa. Da mesma forma que a cegueira chegou, ela se foi.

“Estar cego não é estar morto, Sim, mas estar morto é estar cego.”

Apesar do começo ter sido difícil se acostumar com o estilo de Saramago, logo ‘peguei a manha’ e a leitura fluiu mais fácil. O Homem é tratado como ele é, um animal. E os instintos do animal Homem são muito bem mostrados nessa obra. O livro é muito bom, vale muito pena a leitura.

Indico o filme Ensaio sobre a cegueira, de 2008.

Na imagem destacada o quadro Tobias Healing the Blindness of His Father, de Gioacchino Assereto.

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Até a próxima!

18 comentários

    1. Gosto muito deste livro, mas eu sou suspeita, pois gosto muito de Saramago. Pensando na morte de João Gilberto, acho q o Saramago e João Gilberto, para mim não importa o mau feitio de ambos, eram gênios.
      Eu indico a leitura do livro O homem duplicado do Saramago. 😊

      Curtido por 2 pessoas

      1. Pois é, eu me encontro neste exato momento passando por uma situação parecida quando da leitura desse livro.
        Era o primeiro livro do autor e eu fiquei receoso de ver que sua escrita poderia não ser tudo isso que os outros falavam. Mas vi que ele é sim tudo isso que falam, e esse livro me deu uma amostra do potencial de Saramago.
        E com João Gilberto está acontecendo a mesma coisa. Eu nunca ouvi nada dele, e agora, com a sua morte, eu me permiti ouvir. Estou realmente maravilhado com a qualidade de suas canções.
        Me sinto muito bem ao conhecer algo (livros/autores, músicas/músicos) que realmente me toca. E Saramago e João Gilberto me tocaram profundamente com suas respectivas artes.
        Obrigado pelo comentário e pela indicação do livro.

        Curtido por 1 pessoa

  1. Quando vi que era Saramago, fiquei pensando se lia ou não a resenha. É que tenho tanto carinho por ele, que não levo bem quem fala mal. hehehe Gosto muito desse livro, foi meu primeiro Saramago. Meu favorito dele é Memorial do Convento, genial.

    Curtido por 1 pessoa

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