Melancolia #75

p_20190425_074210_1-368384686.jpg

Autor: Jon Fosse
Editora: Tordesilhas
Ano: 2015
Páginas: 404

“E você deve pintar, rapaz, a luz interior, a luz que você e eu somos capazes de ver.”

Lars Hertervig foi um pintor norueguês. Seu trabalho semi-fantástico com motivos da paisagem costeira no distrito norueguês de Ryfylke é considerado um dos picos da pintura norueguesa. Nascido de uma família de agricultores muito pobre, viveu sob a alcunha pejorativa de ser um quaker (nome dado a vários grupos religiosos conhecidos pela defesa do pacifismo e da simplicidade, rejeitando qualquer organização clerical, para viver no recolhimento e na pureza moral) a sua vida inteira. Com apenas 22 anos entrou na Academia de Artes de Dusseldorf e se tornou aluno particular do famoso pintor Hans Gude. Mas logo depois teve um colapso mental do qual nunca se curou. Lars Hertervig morreu em 1902 sob condições graves de pobreza. Várias obras desse período são aquarelas e guache sobre papel, já que ele não podia se dar ao luxo de pintar com óleo sobre tela.

Esse livro é um relato sobre a vida conturbada do pintor, além de ser uma ótimo ponto de reflexão.

Posso não me tornar nunca um pintor de verdade. Eu não sei pintar. Pois talvez eu não tenha tanta serventia. Pode ser que eu nunca venha a pintar de verdade, porque tenho olhos grande demais. Vejo demais. Vejo em demasia, para poder pintar.

O livro está divido em duas partes, como se fossem dois livros contando histórias que se entrelaçam em alguns momentos. Na primeira parte, que é a maior, acompanhamos Hertervig já morando em Dusseldorf como aluno da Academia de Artes. Como não tinha meios de se manter sozinho, ele alugava o quarto de uma família da cidade que era composta de uma mulher com sua filha de 15 anos chamada Helene, e do tio de Helene, Sr. Winckelmann. Hertervig está no início do processo de confusão mental, e o autor nos dá uma boa dose de sua loucura através de diálogos curtos e de extensos (às vezes com mais de 2 páginas) pensamentos repetitivos e desconexos da mente de Hertervig.

O pintor nutre um desejo afetivo/sexual por Helene, que ele considera sua namorada. Por conta desse romance proibido, já que Helene tem apenas 15 anos, e sob a suspeita de que Lars descubra os abusos cometidos pelo tio de Helene, o Sr. Winckelmann expulsa Hertervig de seu quarto alugado, e a confusão mental do pintor só aumenta quando ele vai até um bar da cidade e encontra seus amigos de Academia que fazem troça dele por conta de sua origem humilde e de sua loucura cada vez mais latente. E aqui, o livro fica denso de pensamentos desconexos e de uma torrente de imagens que rodam em círculo na cabeça de Lars Hertervig.

Preciso conseguir pintar de novo, preciso conseguir pintar nuvens de novo, árvores e choupos, grandes montanhas. Pois sou um pintor, sou o pintor de paisagens Lars Hertervig, discípulo de ninguém menos que Hans Gude, formado na Academia de Belas-Artes de Dusseldorf. Sou um artista, um pintor. Sou o pintor artístico Lars Hertervig. Eu sei pintar.

Ele então é internado no Manicômio de Gaustad, em Christiania. Agora, Lars Hertervig é um louco pervertido que só pensa em se masturbar com as memórias que guarda de Helene, com apenas alguns resquícios de seu dom para pintar paisagens. Novamente, pensamentos circulares acompanham o leitor. E então começa a segunda parte: poucos meses depois da morte de Hertervig, onde acompanhamos os últimos dias de vida de sua irmã, Oline.

Oline, também com pensamentos desconexos devido à idade avançada, revive alguns momentos de sua infância ao lado de seu irmão Lars. E então algumas passagens da vida do pintor passam a fazer sentido. A infância de Lars sempre foi muito pobre e ele teve que trabalhar no campo para ajudar o pai desde muito cedo. O pai de Lars e Oline sempre foi muito severo e era extremamente violento, além de reprimir qualquer a manifestação social, afetiva e sexual de seus filhos. Apesar de não compreender, no início, a loucura de Lars, conseguimos entender o porquê de seus devaneios.

É interessante pensar que somos um amálgama de pensamentos e situações e que com o passar do tempo, assim como um escultor vai moldando a argila, vamos tomando forma e sendo moldados pela vida. Por mais que hoje sejamos diferente daquilo que éramos ontem, a nossa essência continua a mesma. Esse é um livro que vale a pena ser lido.

Na imagem destacada o quadro Strandsted, Skånevikskanten  do próprio Lars Hertervig, pintado em 1853.

Agora, o blog está também no Instagram!!!

Comprar:

Amazon

Até a próxima!

 

Anúncios

3 comentários

  1. Fui pesquisar algumas obras, e mesmo sendo pinturas de paisagens há algo de sombrio. Provavelmente, resultante de sua condição.
    Uma vez fiz um post sobre visita a um museu em Den Haag (Haia) e estava uma pintura da paisagem da minha terra. Foi emocionante, mas tb notei como o relevo mudou ao longo dos anos .
    Obrigada.
    Abraços

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s