A Cabra Vadia #78

Autor: Nelson Gonçalves
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 243

“Como é antigo o passado recente.”

Nelson Rodrigues foi um teatrólogo, jornalista, romancista, folhetinista e cronista de costumes e de futebol brasileiro, e tido como o mais influente dramaturgo do Brasil. Eu confesso que não conhecia a sua obra até ter contato com a adaptação para a televisão de A Vida como Ela é…, uma série de contos escritos por Nelson Rodrigues para o jornal Última Hora. O livro A Cabra Vadia é na verdade uma seleção feita por Nelson Rodrigues em 1970 das crônicas publicadas em O Globo entre 1967 e 1969. São 84 textos no total.

Cada um de nós carrega um potencial de santas humilhações hereditárias. Cada geração transmite à seguinte todas as suas frustrações e misérias. No fim de certo tempo, o brasileiro tornou-se um Narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Eis a verdade: não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a auto estima.

O livro desperta um misto de sensações. Em primeiro lugar, o leitor precisa ter me mente que os textos contidos no livro são crônicas que Nelson Rodrigues escrevia diariamente, ou seja, suas palavras contam a sua visão do mundo. Em segundo lugar, há que se considerar que o mundo, em 1968, passava por uma extrema revolta (para não usar a palavra revolução) dos costumes, do pensamento, das liberdades, etc.

Há, em qualquer brasileiro, uma alma de cachorro de batalhão. Passa o batalhão e o cachorro vai atrás. Do mesmo modo, o brasileiro adere a qualquer passeata. Aí está um traço do caráter nacional.

Nelson Rodrigues deixa bem claro o seu posicionamento político: era um reacionário. Em plena vigência da ditadura militar, ele ataca os movimentos de esquerda no Brasil, os movimentos estudantis e até a organização do teatro brasileiro. A alta sociedade para ele era lugar de grãs-finos entorpecidos pelo ópio marxistas, que dormiam sonhando com Revolução Russa e escreviam ‘Muerte!’ em seus cartazes. Para Nelson Rodrigues Cuba era um delírio. Tanto que dizia que Cuba era uma Paquetá. Além disso, sua crítica ao movimento de esquerda se dava muito pela distância entre as ações dos ‘revolucionários’ e seus discursos inflamados em mesas de bar no Leblon. “Há uma sábia distância entre os heróis do Leblon e o perigo.”

Eu e o entrevistado e, no máximo, uma cabra vadia. Além do valor plástico da figura, a cabra não trai. Realmente, nunca se viu uma cabra sair por aí fazendo inconfidências.

E entre críticas e rotinas, Nelson Rodrigues nos dá um pouco de sua visão acerca de acontecimentos mundiais: a morte de Bob Kennedy, os protestos na França, o posicionamento da Igreja Católica. Tudo recheado com muita ironia, alguns sofismas, e muito bom humor. É um livro que não há muito do que se falar, ele fala por si. Nelson Rodrigues é daqueles autores que não precisam de explicação, ele próprio se explica e nos confunde, nos amarra em suas palavras e nos liberta com suas reflexões. Deixemos, então, Nelson Rodrigues nos dizer aquilo que está na nossa frente, sendo esfregado diariamente nas nossas faces, mas que não sabemos como dizer:

Após milênios da passividade abjeta, o idiota descobriu a própria superioridade numérica. Começaram a aparecer as multidões jamais concebidas. Eram eles, os idiotas. Os ‘melhores’ se juntavam em pequenas minorias acuadas, batidas, apavoradas. O imbecil, que falava baixinho, ergueu a voz; ele, que apenas fazia filhos, começou a pensar. Pela primeira vez, o idiota é artista plástico, é sociólogo, é cientista, é romancista, é prêmio Nobel, é dramaturgo, é professor, é sacerdote. Aprende, sabe, ensina.

Na imagem destacada, o belíssimo quadro St Jerome de Caravaggio – 1605.

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Até a próxima!

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