Entre Quatro Paredes #80

p_20190715_121258_11016658923.jpg

Autor: Jean-Paul Sartre
Editora: Abril Cultural
Ano: 1977
Páginas: 100

“Estelle – Oh! Meu caro senhor! Se quisesse deixar de empregar palavras tão cruas assim! … É! … é ‘chocante’. Afinal de contas, o que significa isso? Quem sabe se nunca estivesse tão vivo como agora?”

Jean-Paul Sartre foi um filósofo, escritor e crítico francês, conhecido pelo seu pensamento baseado no existencialismo. Era um artista militante e apoiou causas políticas de esquerda com a sua vida e a sua obra. Durante o período da Segunda Guerra Mundial Sartre chegou a ser preso pelos alemães e depois de sua fuga se alistou nas fileiras da Resistência Francesa.

Seu pensamento dizia que no caso humano a existência precede a essência, pois o homem primeiro existe, depois se define, enquanto todas as outras coisas são o que são, sem se definir, e por isso sem ter uma “essência” que suceda à existência.

Garcin – Nós outros, nós batíamos as pálpebras. Chama-se isso piscar. Um pequeno relâmpago negro, uma cortina que cai e se ergue: deu-se a interrupção. Os olhos se umedecem, o mundo se aniquila. Você não pode imaginar como era refrescante. Quatro mil repousos por hora. Quatro mil pequenas evasões. Quatro mil, digo eu … Como é? Então vou viver sem pálpebras? Não se faça de bobo. Sem pálpebras, sem sono, é a mesma coisa. Nunca mais hei de dormir… Como poderei me tolerar?

Essa é uma peça em um ato apenas que conta a chegada de três pessoas a um lugar após a morte. Seria o céu ou o inferno? O primeiro a chegar é Garcin: um escritor que queria ser um herói, mas que quando foi convocado para a guerra fugiu, e por isso foi fuzilado. Ele fica intrigado com o criado que o leva até aquela sala e logo descobre que não ficará sozinho. Chega então Inês, homossexual, funcionária dos correios. Tem uma personalidade agressiva e procura reforçar o sofrimento dos outros. Por último chega Estelle, uma burguesa fútil que assassinou o bebê que teve com seu amante e fugiu da própria culpa responsabilizando o destino.

Estelle – Sinto uma coisa esquisita. Com você não é assim também? Quando não me vejo, por mais que eu me apalpe, fico na dúvida se existo mesmo de verdade. Eu me via como os outros me viam, por isso ficava acordada.

Então cada personagem precisa tentar resolver as pendências com o passado ao mesmo tempo que descobre sua nova condição naquele estranho lugar, parecido com um quarto luxuoso de um hotel de luxo. Cada personagem tem então um vislumbre do que aconteceu depois de sua morte, assim Garcin vê sua esposa e relembra que apesar dela estar em prantos, ele sempre a traiu. Estelle percebe que em seu quarto outras pessoas agora vivem, mas a lembrança do bebê que matou se transforma em uma mancha em seu coração.

Então eles próprios começam a entrar em conflito. A beleza de Estelle chama a atenção de Inês que logo a corteja. Estelle se sente atraída por Garcin e Garcin se mantém estático pensando em como passará a eternidade dentro daquele ambiente com aquelas pessoas. Logo os três estão discutindo: Garcin tenta uma relação com Estelle para enraivecer Inês, mas o ambiente não favorece e as lembranças do passado continuam a torturar os personagens.

Garcin – Não serei o carrasco de ninguém. Não lhes desejo mal, e nem tenho que viver com as senhoras. Nada. É muito simples. Vejam só, cada qual no seu canto: esse é que é o jogo. A senhora qui, a senhora ali, eu lá. E silêncio. Nem um pio. Não é difícil, não é mesmo? Cada um de nós tem muito que se incomodar consigo mesmo. Acho que seria capaz de passar dez mil anos sem falar.

Brigam tanto e não chegam a lugar algum. Garcin então diz uma célebre frase que ficou famosa e até hoje é lembrada. Eu mesmo não sabia que essa frase era dessa peça, mas concordo inteiramente com ela. Aliás, hoje, mais do que nunca, essa frase é pura verdade em cada uma de suas letras:

“O inferno são os outros!”

Na imagem destacada o quadro Figures in Hell, de Jheronimus Bosch.

Essa peça já foi levada ao cinema em uma adaptação chamada Huis Clos de 1954.

Comprar:

Amazon

Até a próxima!

 

 

 

 

4 comentários

  1. Em Existencialismo é um Humanismo, esta frase também é citada… Sartre, sem dúvidas, foi um dos grandes homens do séc. XX… No meu curso de filosofia, talvez a obra mais difícil e densa que li, tenha sido O Ser e o Nada… E olha que li a Fenomenologia do Espirito de Hegel e O Ser para a Morte de Heiddegger… Esta frase foi uma de minhas motivações para fazer minha dissertação de mestrado sobre a alteridade e a tentativa de atribuirmos ao outro o mal e o erro, para protegermos o eu destas pechas… Paz e Bem, Gabriel..

    Curtido por 1 pessoa

    1. Quanto conhecimento descrito em poucas palavras, Estevam. Sempre penso em como deve ser ler livros desse ‘calibre’. Alguns estão em meu horizonte de leitura, apesar de ainda ter algumas ressalvas sobre se eu alcançarei o valor desses livros
      Parabéns pelas leituras.
      Abraço meu amigo.

      Curtido por 1 pessoa

  2. Diria, um de meus mestres da filosofia que são obras pra serem lidas após os 40 anos, quando as paixões estão de certa forma amainadas. Mas, sem dúvidas que estas obras são densas e profundas que deixam marcas eternas em nossas mentes. Paz e Bem!

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s