Crime e Castigo #84

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Autor: Fiódor Dostoiévski
Editora: Editora 34
Ano: 2001
Páginas: 561

“Compreende-me: se voltasse a trilhar o mesmo caminho, talvez eu nunca mais repetisse o assassinato. Eu precisava saber de outra coisa, e saber o quanto antes: eu sou um piolho, como todos, ou um homem? Eu posso ultrapassar ou não! Eu posso inclinar-me e tomar ou não! Sou uma besta trêmula ou tenho o direito de matar?”

Fiódor Dostoiévski é considerado um dos maiores romancistas e pensadores da história. A influência de Dostoiévski é extensa: ele influenciou diretamente a Literatura, a Filosofia, a Psicologia e a Teologia. Suas obras mais importantes foram as literárias, onde abordou, entre outros temas, o significado do sofrimento e da culpa, o livre-arbítrio, o cristianismo, o racionalismo, o niilismo, a pobreza, a violência, o assassinato, o altruísmo, além de analisar transtornos mentais, muitas vezes ligados à humilhação, ao isolamento, ao sadismo, ao masoquismo e ao suicídio. Esse livro foi publicado em 1866, e, junto com Os Irmãos Karamazov, transformaram Dostoiévski  em um dos maiores nomes da literatura mundial

“Oh, aqui, havendo oportunidade, nós esmagamos até o nosso sentimento ético; levamos à loja de usados a liberdade, a tranquilidade, até a consciência, tudo, tudo. Dane-se a vida! Contanto que esses nossos seres apaixonados sejam felizes.”

O enredo do livro gira em torno de Rodion Raskólnikov, um jovem estudante que mora sozinho no subúrbio de São Petersburgo (atual Leningrado), e que comete um duplo assassinato: mata uma idosa que penhora objetos valiosos e sua irmã, aparentemente sem nenhum motivo. Os assassinatos não são os acontecimentos mais importantes da obra, o que importa para o autor é o que levou Raskólnikov a praticar o ato, e mais ainda, a incapacidade do assassino de conviver com a sua culpa. Raskólnikov se torna um personagem emblemático desde o início do livro. Alternando momentos de extremo torpor diante de sua condição miserável e do ato praticado com pensamentos que transcendem a culpa e a resignação diante do destino. Raskólnikov ora está completamente louco, ora está em seu perfeito juízo, mantendo a sanidade a qualquer custo.

“A senhora acha que estou a favor de que eles mintam? Absurdo! Eu gosto quando mentem! A mentira é o único privilégio humano perante todos os organismos. Quem mente chega à verdade! Minto, por isso sou um ser humano. Nunca se chegou a nenhuma verdade sem antes haver mentido de antemão quatorze, e talvez até cento e quatorze vezes, e isso é uma espécie de honra; mas nós não somos capazes nem de mentir com inteligência! Mente para mim, mas mente ao teu modo, e então eu te dou um beijo. Mentir ao seu modo é quase melhor do que falar a verdade à moda alheia.”

Outro ponto de grande reflexão está nas relações de Raskólnikov com os outros personagens. É particularmente notável a relação dele com as mulheres. De uma quase admiração doentia pela mãe e uma preocupação exagerada com o casamento da irmã, até o desdém inacreditável pela vida da senhora credora e de sua inocente irmã de quem Raskólnikov não possui a menor compaixão no momento do crime. A crítica especializada aponta flagrantes traços autobiográficos, como a citada adoração pela mãe, o vício do jogo e a fidelidade psicológica.

“Era um dentre a legião inumerável e variegada de tipos vulgares, de abortos macilentos e tiranetes ignorantes, que num abrir e fechar de olhos aderem forçosamente à ideia mais em voga para banalizá-la no mesmo instante, caricaturar de imediato tudo a que eles mesmos às vezes servem da forma mais sincera.”

Raskólnikov nega o crime inicialmente com base em uma reflexão muito interessante e muito atual: para ele existem dois tipos de homens, os ordinários e os extraordinários. Aos homens extraordinários é permitido fazer com que a lei se curve ante seus desejos a ponto de modificá-la, e cabe aos homens ordinários (como ele) apenas seguir essas mesmas leis. Um ponto bem peculiar é a atração que Napoleão Bonaparte exerce em Raskólnikov. (Vale lembrar que Napoleão tentou invadir a Rússia em 1812, Dostoiévski nasceu em 1821 e o livro é de 1866, ou seja, Napoleão é um personagem ainda muito presente na vida do autor). Para Raskólnikov, apesar de ceifar milhões de vidas, tomar o poder de forma tirânica, levar todo o continente à guerra, Napoleão após a morte se tornou um ídolo. Com esse pensamento, Raskólnikov se pergunta se a ele também seriam dadas essas mesmas honras.

“Compreende-me: se voltasse a trilhar o mesmo caminho, talvez eu nunca mais repetisse o assassinato. Eu precisava saber de outra coisa, e saber o quanto antes: eu sou um piolho, como todos, ou um homem? Eu posso ultrapassar o limite ou não! Eu posso inclinar-me e tomar o poder ou não! Sou uma besta trêmula ou tenho o direito de matar?”

No fim, Raskólnikov realmente se entrega e de coração aberto confessa o crime. Sua pena é o campo de trabalhos forçados na Sibéria, mas isso é o que menos importa. O pensamento de Raskólnikov vai sendo construído aos poucos, depois de muita reflexão sobre a sua própria condição econômica miserável, e da condição psicológica desprezível de todos os que o cercam. E é quando Raskólnikov domina a si mesmo e a seus pensamentos que ele decide se entregar. Raskólnikov passa a ter consciência de sua própria existência, e passa a ter absoluta convicção de que ele não passa de um homem ordinário, de um homem comum.

“Olhe só atentamente e procura enxergar! Eu mesmo queria o bem das pessoas e faria centenas, milhares de coisas boas em vez dessa tolice, que nem tolice é, mas simplesmente uma falta de jeito, uma vez que toda essa ideia não tinha nada de tão tola como parece agora, depois do fracasso … (Depois do fracasso tudo parece tolo!) Com essa tolice eu queria apenas me colocar numa condição independente, dar o primeiro passo, conseguir recursos, e depois tudo seria reparado pela utilidade relativamente incomensurável do ato. Mas eu, eu não segurei nem o primeiro passo, porque soou um patife! Eis em que consiste tudo.”

Esse livro ensina que devemos estar em eterna busca por nós mesmos. Saber exatamente do que somos capazes para alcançar nossos objetivos. Além disso, Raskólnikov nos mostra que todos temos segredos, sejam eles brandos ou torpes. Todos nós possuímos mãos sujas de algum ‘crime’ e estamos em constante combate contra nós mesmos na eterna espera de que o castigo seja proferido.

Acho que passei por uma catarse depois que li o livro. E você, já leu esse livro? Deixe nos comentários o que você achou dessa obra.

Existem diversas adaptações cinematográficas, mas indicarei o filme finlandês Crime e Castigo de 1983.

Na imagem destacada o quadro Before the Punishment, de Sergei Korovin – 1884.

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Até a próxima!

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