Demian #86

p_20191124_105349_1-1812083760.jpgAutor: Hermann Hesse
Editora: Record
Ano: 2012
Páginas: 188

“‘Quem quiser nascer tem que destruir um mundo’ – eis a mensagem – destruir no sentido de romper com o passado e as tradições já mortas, de desvincular-se do meio excessivamente cômodo e segura da infância para a consequente dolorosa busca da própria razão de existir: ser é ousar ser.”

O primeiro livro que eu li de Hermann Hesse foi Sidarta, e foi uma leitura tão transformadora que logo me senti na necessidade de ler outra obra do autor. Então, tive a oportunidade de ler Demian, livro escrito antes do citado Sidarta. E digo oportunidade porque apesar de ser um livro relativamente pequeno, sua leitura nada tem de rasa. Somos levados a uma introdução de nós mesmos (introdução no sentido de entrar profundamente).

“Tudo aquilo deixara de ser meu; já não me era possível participar de sua paz serena. Meus pés estavam manchados de uma lama que não se podia limpar no capacho da porta; trazia comigo trevas inteiramente desconhecidas do claro mundo de meu lar.”

O livro segue a narrativa em primeira pessoa de Emil Sinclair, que refaz sua história desde a sua infância até a sua idade adulta. Criado em um lar piedoso e educado, Sinclair logo descobre que a realidade é dividida em dois mundos antagônicos. Um mundo é o da retidão e do altruísmo, o mundo da claridade, bem representado pela sua casa e pela sua família; outro mundo é escuridão, é o mundo das amizades perniciosas, da luxúria e da perversidade. Sinclair passa a transitar entre esses dois mundos e isso o perturba inteiramente, pois o sabor doce do mundo da escuridão contrasta com sua maldade intrínseca, ao passo que a serenidade de seu lar já traz a Sinclair motivos de júbilo.

“O adulto, que aprendeu a converter em conceitos uma parte de seu sentimento, menospreza tais conceitos na criança e terminar por opinar que não existiram também os sentimentos que lhe deram origem.”

Logo Sinclair se envolve com amigos maldosos, mas nesse momento de sua vida conhece Demian, um jovem mais maduro, mais centrado e mais vivido do que ele. E então sua vida se transforma. O contato com Demian traz ao jovem Sinclair a sensação de que o mundo era mais do que o que se apresentava aos seus olhos. Sua existência era muito mais do que a vida simples que ele levava.

Sinclair cresceu e desenvolveu uma capacidade de pensamento e de sentimento cada vez mais apurada. Mesmo em momentos de recaída, como nos anos de universidade, ele encontrou dentro de si e das lembranças de Demian forças para continuar o caminho que acreditava estar traçado para ele.

“Não creio que se possam considerar homens todos esses bípedes que caminham pelas ruas, simplesmente porque andam eretos ou levam nove meses para vir à luz. Sabes muito bem que muitos deles não passam de peixes ou de ovelha, vermes ou sanguessugas, formigas ou vespas. Todos eles revelam possibilidades de chegar a ser homens, mas só quando vislumbram e aprendem a levá-las em parte à sua consciência é que se pode dizer que possuem uma.”

O livro traz muitas referências a muitos acontecimentos e situações. Há uma questão religiosa interessante quando Demian diz a Sinclair que a marca de Caim, citada na Bíblia e representada como a marca da traição e da vergonha, pode ser a marca dos mais fortes. Segundo Demian, o povo comum viu nessa marca de força um perigo e por isso teria estereotipado a marca como algo nocivo. Essa é uma das discussões de aspecto religioso.

Outro acontecimento marcante no livro diz respeito ao jogo de luz e sombra que Sinclair identifica no inicio do livro. Ao longo da história, Sinclair e Demian desenvolvem uma ligação profunda com a realidade, com o bom e com o mal, e pressentem algo nefasto se aproximando, seja em visões seja em sonhos. Sinclair e Demian estavam prevendo o início da Primeira Guerra Mundial, que ceifou milhões de vidas e trouxe para a realidade o que de mais nocivo havia no ser humano.

“Para o homem consciente só havia um dever: procurar-se a si mesmo, afirmar-se em si mesmo e seguir sempre a diante o seu próprio caminho, sem se preocupar com o fim a que possa conduzi-lo. Tal descoberta comoveu-me profundamente e foi para mim como o fruto daquela vivência. Muitas vezes havia brincado com imagens do futuro e havia entressonhado os destinos que me estavam reservados, como poeta talvez, ou talvez como profeta, como pintor, ou de que modo fosse. E tudo isso era um equívoco. Eu não existia para fazer versos, para rezar ou para pintar. Nem eu nem nenhum homem existíamos para isso. Tudo era secundário. O verdadeiro ofício de cada um era apenas chegar até si mesmo.”

O livro fala por si e todas essas palavras que escrevi sobre ele não conseguem se aproximar de todos os significados que Demian possui. Um livro profundo que nos faz meditar não apenas sobre nossa existência, mas que caminhos queremos trilhar no futuro.

Na imagem destacada o quadro: The Death of Narcissus, de François-Xavier Fabre – 1814.

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Até a próxima!

 

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