A Morte de Ivan Ilitch #89

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Autor: Leon Tolstoi
Editora: L&PM Pocket
Ano: 2007
Páginas: 99

“Controlou-se um pouco e pôs-se a chorar como uma criança. Chorou por sua solidão, seu desamparo, pela crueldade do ser humano, a crueldade de Deus e a ausência de Deus.”

Esse livro é considerado uma das obras-primas da literatura mundial, também é classificado entre os melhores exemplos de novela. Foi escrito logo após a conversão religiosa de Tolstoi no final da década de 1870; e essa conversão é bem visível no final do livro.

A história gira em torno da vida adulta de Ivan Ilitch até a sua morte,  mas o seu início se passa no velório do personagem (qualquer semelhança de Memórias Póstumas de Brás Cubas não acho que seja mera coincidência). Ivan Ilitch, então um jovem juiz, conhece e se casa, pela beleza e pelo dinheiro, com Praskovya Fiodorovna. Ele recebe uma promoção e se torna um juiz importante e respeitado em uma grande cidade.

“Ultimamente, na solidão em que se encontrava, deitado com o rosto virado para as costas do sofá, solidão no meio de uma cidade superpovoada e rodeado de inúmeros conhecidos – solidão mais completa do que qualquer outra, seja no fundo do mar ou no centro da Terra -, nessa assustadora solidão, Ivan Ilitch vivia somente de lembranças do passado.”

A vida de Ivan Ilitch é como muitas outras: o trabalho toma muito de seu tempo, mas ele consegue acompanhar o nascimento e o crescimento dos filhos; a relação com a esposa oscila entre momentos de carinho e brigas colossais sobre assuntos fúteis do dia-a-dia. Mas quando a família resolve se mudar para uma casa maior, Ivan Ilitch resolve mobiliar e decorar o novo lar por conta própria. É quando sofre um pequeno acidente e bate com a região do rim em um móvel. Mas o incidente passa desapercebido.

A vida na nova casa mostra sinais de uma reconciliação para o casal, contudo, esse momento é efêmero e logo brigas e discussões retornam ao cotidiano. É quando Ivan Ilitch começa a sentir as primeiras pontadas de uma dor aguda e contínua.

“O horrível, terrível ato de sua morte, ele via, estava sendo reduzido por aqueles que o rodeavam ao nível de um acidente fortuito, desagradável e um pouco indecente (mais ou menos como se comportam com alguém que entra em uma sala de visitas cheirando mal), e agiam assim em nome do mesmo decoro ao qual ele subjugara-se a vida inteira.”

A dor passa a acompanhar Ivan Ilitch diariamente. Ele abandona o tribunal por não conseguir mais proferir suas antes belas e concisas sentenças. Entre médicos e tratamentos, as relações com a filha, prestes a casar, com o filho pequeno em idade escolar, e principalmente, com a esposa, se tornam graves e insuportáveis. Ivan Ilitch culpa a todos pelo desgosto daqueles dias. E a família acompanha o definhar de um homem.

Diante da iminência de uma morte cruel e dolorosa, Ivan Ilitch se questiona sobre sua conduta, questiona os desígnios de Deus, e se afasta cada vez mais de sua família. Mas a morte não se atrasa, nem confunde-se quanto ao seu objetivo. Ivan Ilitch estava, apesar de tudo o que pudesse lhe passar pela cabeça, com a morte à sua espera.

“Controlou-se um pouco e pôs-se a chorar como uma criança. Chorou por sua solidão, seu desamparo, pela crueldade do ser humano, a crueldade de Deus e a ausência de Deus.”

A beleza desse livro está na forma como Ivan Ilitch se encaminha para o inexorável encontro com a morte. Ele sentiu a proximidade da morte, sentiu seu corpo abandonar as faculdades essenciais, sentiu sua alma despedaçar-se aos poucos. O ópio trazia uma liberdade inconsciente e fugaz, mas ineficaz para um sofrimento que rompia a barreira da sanidade. Somente o passado era capaz de trazer algum alento, e foi à ele que Ivan Ilitch se apegou.

“O que fica após nossa morte?” Questiona-se Ivan Ilitch, mas também nos questionamos: O que ficará após nossa morte? Será que nossa conduta será o suficiente para um descanso eterno? Será a constituição de uma família e a posse de bens o necessário para uma morte limpa e leve, como supôs Ivan Ilitch? A morte é algo ainda incógnito no mundo dos homens. Várias religiões, senão todas, preocupam-se com o momento seguinte ao último suspiro; muitas tentam mostrar um nova vida, no paraíso ou no purgatório. Mas esse livro nos convida à refletir que o que importa à hora da morte é a vida que vivemos, os amores que florescemos em nossos corações, as amizades que construímos e o bem que compartilhamos. Ivan Ilitch descobriu, no final, que o que importa na morte é a vida! (Nada melhor que falar da vida próximo ao aniversário. Sim, meu aniversário é amanhã, 29 de abril 😀 )

“Um calafrio percorreu seu corpo, a respiração ficou ofegante e ele só conseguia ouvir o coração disparar. ‘Não existirei mais e então o que virá? Não haverá nada. Onde estarei quando não existir mais? Será isso morrer? Não. Eu não vou aceitar isso!’ Levantou-se e tentou acender a vela com as mãos trêmulas. Deixou cair a vela e castiçal no chão e atirou-se outra vez à cama. ‘De que adianta? Que diferença faz?’, perguntava-se fixando, com os olhos arregalados, a escuridão. ‘Morte. Sim, morte. E nenhum deles entende, ou quer entender. E não sentem pena nenhuma de mim. Estão todos se divertindo.'”

Na imagem destacada o quadro Life and Death, de Gustav Klimt –  1908-1911.

Há uma adaptação do livro em Ivans Xtcfilme americano de 2002 que traz a história do livro para Hollywood contemporânea.

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Até a próxima!

 

12 comentários

    1. Olá Bia, obrigado por sua presença.
      Esse livro foi uma grande surpresa para mim. Apesar do grande sofrimento que o personagem passa, ele consegue nos transmitir algumas reflexões muito importantes.
      Devemos celebrar a vida, em todos os momentos.
      Essa é a grande lição desse livro.
      Abraço.

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  1. Gabriel, eu li esse livro há 20 anos atrás. Que bom revê-lo em seu texto. Já são duas décadas, e não me recordava de alguns detalhes. No entanto, lembro de tê-lo achado triste, e que também fiquei a refletir muito.
    Parabéns por seu aniversário!

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  2. Olá!
    Me parece que os escritores russos em geral conseguem capturar e transmitir a tristeza e a miséria de uma maneira única e muito pungente. Chega a ser desconfortável a maneira com que a dor é revelada, sem pudor algum – ao mesmo tempo em que estas obras são geniais, atmosféricas e sufocantes como poucos livros conseguem ser.
    As poucas passagens que incluíste no post me deixaram intrigada com como cenas tão simples (“deitado com o rosto virado para as costas do sofá”) ganham tanta vida e com as descrições de momentos às vezes difíceis de serem percebidos mas que, depois de expostos, parecem ridiculamente óbvios e familiares (“O horrível, terrível ato de sua morte, ele via, estava sendo reduzido por aqueles que o rodeavam ao nível de um acidente fortuito, desagradável e um pouco indecente […]”).
    Apesar de ser um livro curto, cada passagem parece extremamente densa. Com certeza o lerei logo.

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    1. Oi Carolina, seu comentário consegue sintetizar o meu sentimento sobre escritores russos, como Gógol, Tolstoi e Dostoiévski. Os sentimentos de seus personagens são viscerais e profundos. Me pego, as vezes, tendo que reler algumas passagens por achar difícil de acreditar naquilo que meus olhos estão lendo. Definitivamente, a complexidade psicológica de Ivan Ilitch foi o que mais me fascinou nesse livro.
      Obrigado por seu comentário. Fico muito feliz de saber que você gostou do post.
      Abraço.

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  3. Muito bom o resumo. Eu li esse livro a alguns anos e hoje ao procurar por ele na internet achei seu site, é muito legal ver conteúdo assim. Eu lembro que esse livro me deixou agoniada pois achei que a descrição da morte como o personagem viveu, esse misto de raiva e tristeza, ia de acordo com o que eu esperava dela, e esse livro me trazia uma certa “confirmação” de que seria assim. E em certo momento parei pra pensar que o livro foi escrito por alguém que até o momento em que finalizou ele nunca tinha morrido, então não havia porque levar tão a sério nem essa nem nenhuma descrição da morte escrita por alguém que que nunca morreu haha. Mas ter parado para refletir sobre o que eu achava e sentia sobre a morte com certeza me ajudou a lidar com o assunto e ainda hoje me ajuda a fazer escolhas na vida, e acho que é uma reflexão que todos deveriam fazer.

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    1. Olá Rute, obrigado pela presença.
      Você tem toda razão, pensar na brevidade da vida pode libertar nossos pensamentos. Fico muito feliz que você tenha gostado do post. Essa leitura também me fez repensar muita coisa.
      Abraço.

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