Germinal #92

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Autor: Emile Zola
Editora: Abril
Páginas: 537
Ano: 1972

“Se era necessário que uma classe fosse devorada, não seria o povo, cheio de vida, jovem ainda, quem iria devorar a burguesia, exausta de tantos prazeres? Com sangue novo se faria a sociedade nova. E, nesta espera de uma invasão de bárbaros, regenerando as velhas nações caducas, ressurgia sua fé absoluta numa revolução próxima, a verdadeira, a dos trabalhadores, cujo incêndio abrasaria o fim do século com a mesma cor purpúrea desse sol nascente, que via ensanguentar o céu.”

Emile Zola foi um consagrado escritor francês, considerado criador e representante mais expressivo da escola literária naturalista além de uma importante figura libertária da França. Germinal, escrito em 1885, é considerada a obra máxima do autor. Para escrever esse romance Zola passou dois meses trabalhando como mineiro na extração de carvão. Viveu com os mineiros, comeu e bebeu nas mesmas tavernas para se familiarizar. Sentiu na carne o trabalho sacrificado, a dificuldade em empurrar um vagonete cheio de carvão, o problema do calor e da umidade dentro da mina, o trabalho árduo que era necessário para escavar o carvão, a promiscuidade das moradias, o baixo salário e a fome. Além do mais, acompanhou de perto a greve dos mineiros.

O livro gira em torno da vida de Etienne, um jovem francês que andava sem destino pelas estradas do interior da França após perder seu emprego e flertar com a miséria e a fome. Ao se aproximar de Montsou, uma das mais famosas minas de carvão daquela região, Etienne decide procurar emprego. A primeira impressão de Etienne foi um misto de temor e fascínio. Já tinha ouvido histórias sobre as minas de carvão, mas foi somente ao ver aqueles homens e mulheres esquálidos descendo por um buraco que mais parecia a boca de um monstro, tragando as almas daqueles que desciam, que Etienne sentiu um arrepio que mudaria para sempre sua vida.

“A Sra. Hennebeau, no entanto, espantava-se ouvindo falar da miséria dos mineiros de Montsou. Então eles não era felizes? Gente que tinha casa, carvão e cuidados médicos, tudo à custa da companhia! Na sua indiferença por aquele rebanho, ela só sabia sobre ele a lição aprendida, com que maravilhava os parisienses de visita; e, tendo acabado por acreditar no que recitava, indignava-se com a ingratidão daquela gente.”

Etienne consegue um emprego na mina Montsou como empurrador dos vagonetes cheios de carvão que eram extraídos e desenvolve uma amizade pela família Maheu, uma família de mineiros típica, com 9 membros entre pai, mãe, filhos, filhas e avô. E é na casa dos Maheu que Etienne encontra o seu primeiro teto para dormir depois de tanto tempo contemplando o frio e o firmamento. O trabalho é exaustivo, repetitivo e desumano em um ambiente tóxico e insalubre.

Com o passar do tempo, nasce em Etienne um sentimento de revolta. Revolta com as condições desumanas de trabalho, revolta com a miséria e a fome que assolavam os pobres mineiros e suas famílias, revolta com a promiscuidade com que as pessoas se tratavam na vila. Etienne, então, imbuído de ideias e ideais socialistas que circulavam pela classe operária européia do fim do século 19, inicia um processo de instigar um movimento de greve entre os mineiros exigindo melhores condições de trabalho e a valorização do que extraíam na mina.

“Estavam nus, não tinham mais nada a vender a não ser a pele, tão carcomida, tão estragada, que ninguém daria um centavo por ela. Por isso nem se davam o trabalho de procurar, sabiam que não havia mais nada, que era o fim de tudo, que não deviam esperar nem uma vela, nem um pedaço de carvão, nem uma batata. Aguardavam apenas a morte; a única pena que sentiam era pelas crianças.”

Os mineiros, liderados por Etienne, iniciam uma greve como nunca havia sido vista. Cruzam os braços e obrigam, pela força, todos os mineiros de todas as minas da região a fazerem o mesmo. E aqui é importante trazer a perspectiva dos donos das minas. As minas eram comandadas por famílias que as haviam recebido como herança de seus antepassados. Eram famílias que criaram fortunas e propriedades através do trabalho árduo dos mineiros. Essas famílias viam o mesmo mundo dos mineiros, mas com outros olhos, os olhos dos patrões que sempre acreditam que fazem concessões demais os empregados que são extremamente ingratos com tudo aquilo que lhes é dado.

A revolta grevista dos mineiros é abafada pelo som dos tiros das forças de segurança que foram chamadas pelos donos das minas. Muitos morreram, homens, mulheres e crianças que tiverem sua vida ceifada na luta pelo direito à vida. Etienne é um dos que sobrevive, sucumbe à fome e retorna ao trabalho na mina, mas ele nunca mais será o mesmo, pois o ideal de liberdade já estava semeado em sua mente, e essa ideia fixa jamais deixaria Etienne se entregar.

“Etienne, no entanto, estava muito animado. Uma predisposição para a revolta o impelia à luta do trabalho contra o capital, uma primeira ilusão, que era produto da ignorância. Não havia nisso um esforço maravilhoso, uma campanha onde a justiça ia enfim triunfar? O fim das fronteiras, os trabalhadores do mundo inteiro levantando-se, unindo-se para assegurar ao operário o pão que ganha. E que organização simples e grandiosa!”

O livro é espetacular. Não há palavras suficientes que possam definir essa obra, tamanha a sua profundidade e a sua proximidade com a crueldade da realidade retratada. Foi difícil ler sobre tanta pobreza e tanta miséria, mais difícil ainda imaginar o que é não ter o que comer dentro de casa com crianças pequenas para alimentar. O sentimento de opressão extrapolado ao máximo possível aliado ao descaso inacreditável do opressor. Além disso, podemos ver como o socialismo operário estava sendo gestado nas pequenas minas, fábricas e oficinas por toda a Europa.

Enfim, um livro que tem muito para nos ensinar, principalmente sobre sermos solidários e não virar as costas para o sofrimento daqueles a quem cabe todo o julgamento do mundo.

 

Na imagem destacada o quadro Miners’ wives carrying sacks of coal, de Vincent van Gogh.

Indico o filme francês Germinal, de 1993, que é o que mais se aproxima da obra literária.

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Até a próxima!

3 comentários

  1. Boa noite, Gabriel. Ano passado no meu papel de coordenador na escola em que trabalho (particular), tive que mediar uma situação na qual uma aluna considerou que o professor que trabalha este livro com a segunda série E.M, não deveria trabalhá-lo mais, por abordar o estupro. Extremismos para todo lado, meu caro.

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    1. Boa noite Estevam, passei por algo parecido nas minhas aulas de mestrado em Filosofia. Havia um desejo em retirar Monteiro Lobato das salas de aula devido ao racismo que ele carregava em algumas palavras. Além de extremismo, esses são casos que mostram a superficialidade do mundo atual. Se as pessoas não conseguem ouvir quem está ao seu lado, que dirá olhar para o passado com um pouco mais de cuidado e pensar. Que dirá pensar, meu amigo.
      Fique bem.

      Curtido por 1 pessoa

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