A Porta no Muro #114

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Autor: H. G. Wells

“Para ele, pelo menos, a Porta no Muro era uma porta de verdade que levava de um muro real a realidades imortais. Disso, agora tenho certeza.”

Quando o nome de H. G. Wells é falado, lembro logo dos clássicos A Guerra dos Mundos, A Máquina do Tempo e A Ilha do Dr. Moreau. Todos excelentes livros de ficção, com história fantásticas e que extrapolam o sentido de realidade. Contudo, não é bem o que vemos nesse pequeno conto escrito em 1906.

Aqui acompanhamos Redmond, um inglês que conta a história de seu amigo recém falecido Wallace. Uma história peculiar, apesar de ser, aparentemente, uma história de vida comum, como a de qualquer ser humano. Mas há na vida de Wallace um totem, um símbolo, que transforma toda a realidade: uma porta no muro.

“- Sei que fui negligente. O fato é que … não é um caso de fantasmas e nem de aparições… mas… é uma coisa estranha de contar, Redmond… Eu sou assombrado. Sou assombrado por uma coisa… que tira a luz das coisas, me enche de desejos.”

Wallace conta que um dia, experimentando um novo caminho para a escola se deparou com uma porta no muro. Cheio de curiosidade, entrou pela porta e o que viu mudou a sua vida. Não tanto pelo que viu, apesar de ter visto um lindo jardim, com belos animais, crianças brincando e pessoas felizes, mas sim pelo que sentiu. Wallace sentiu paz.

Aquela experiência o mudou. A partir de então buscou novamente a paz e a felicidade atrás daquela porta, sem, contudo, encontrá-la. Anos depois, na juventude, a porta novamente apareceu, mas ele tinha um encontro com uma mulher, e não. Quando adulto, viu de novo a porta, mas estava acompanhando um alto membro do governo, e também não entrou. Todas as noites, vagava em rumo pela cidade na esperança de encontrar a porta no muro.

Uma bela manhã, seu corpo foi encontrado atrás de uma porta instalada em um muro que dividia a obra da nova estação do metrô.

“Havia algo no ar de lá que inspirava euforia, que dava uma sensação de leveza e coisas boas e bem-estar; havia algo na visão que deixava todas as cores limpas e perfeitas e sutilmente luminosas. No momento em que entrou, o sentimento foi de uma felicidade intensa… como só acontece em raros momentos e quando se é jovem e cheio de vida e se pode ficar feliz neste mundo. E tudo era lindo lá…”

Percebi 3 possibilidades de leitura desse livro. A primeira é uma leitura de fantasia, onde a história fantástica de Wallace é colocada em paralelo à realidade. Onde Wallace não morre ao encontrar a porta no muro, mas se transporta para essa outra realidade, para sempre.

A segunda leitura que faço é um pouco mais realista. A porta no muro é fruto de uma mente em decadência, que depois de viver uma vida de preocupações e decepções, almeja um lugar puro, um lugar de paz e felicidade. A experiência no jardim atrás da porta é apenas fruto da imaginação, é apenas desejo.

“Estou mais do que meio convencido de que ele tinha, na verdade, um dom anormal e uma sensação, algo que não sei que é, que, na forma de muro e porta, lhe ofereciam uma saída, uma passagem secreta e peculiar fuga para um mundo diferente e mais bonito.”

A terceira leitura que faço é da porta como um símbolo. Quantas vezes deixamos de fazer o que nos traz paz ou de estar em lugares que nos fazem felizes, por conta de obrigações e compromissos, ou ainda por causa de terceiros? Wallace viveu o que tinha que viver, foi bem sucedido profissionalmente, era inteligente e teve uma vida amorosa repleta de prazeres. Mas nunca foi feliz. Nunca teve paz. O seu sonho, a porta no muro, sempre o espreitou, sempre o cercou, mas ele nunca teve coragem para seguir na direção de seu sonho.

“Ela apontou e eu olhei, impressionado, pois, nas páginas vivas daquele livro, eu me vi; era uma história sobre mim, e nela havia todas as coisas que tinham acontecido comigo desde que nasci…”

Qual é a sua porta no muro?

Na imagem destacada o quadro A Wall, Nassau, de Winslow Homer.

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Até a próxima!

3 comentários

  1. Sempre que vejo algo sobre H.G.Wells eu lembro de uma série – Warehouse 13 – em que H.G.Wells era mulher, muito linda aliás kkkkk Vai entender as conexões que o cérebro não esquece né… Mas gostei muito das possibilidades interpretativas 🙂

    Curtido por 1 pessoa

    1. É verdade Bia, a comunicação entre nossos neurônios é por vezes aleatória mesmo, rsrsrsrs.
      Não conhecia essa série. Como não sou um fã muito purista, gosto dessas possibilidades de mudança entre livros e filmes/séries. Me parece interessante um H.G.Wells mulher!
      Obrigado pela visita.
      Abraço.

      Curtido por 1 pessoa

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