1822 #117

wp-1630173376236.jpg

Autor: Laurentino Gomes – Editora: Nova Fronteira – Páginas: 328

“No ano de sua independência, o Brasil tinha, de fato, tudo para dar errado. De cada três brasileiros, dois eram escravos, negros foros, mulatos índios ou mestiços. Era uma população pobre e carente de tudo, que vivia à margem de qualquer oportunidade em uma economia agrária e rudimentar, dominada pelo latifúndio e pelo tráfico negreiro.”

Neste 7 de setembro de 2021 comemora-se 199 anos da independência do Brasil. Assim como os grandes acontecimentos de nossa história, a independência do país não é um assunto de domínio público. Nesse livro, que forma uma trilogia (1808, 1822 e 1889), o jornalista Laurentino Gomes nos mostra uma história que não é contada nas salas de aula. Uma história feita de sangue, traição, hipocrisia e liberdade.

Com a chegada de D. João VI, rei de Portugal, em 1808, o Rio de Janeiro passou por grandes mudanças, assim como todo o território nacional. Mudanças que se fizeram sentir também na sociedade e na elite brasileira. Em 1821, com a tentativa de uma revolta para destituir a monarquia, D. João VI é forçado a retornar à metrópole, deixando como príncipe regente seu primogênito, Pedro. E é aqui que o Brasil independente começa a aparecer.

“Um resumo das ideias de Bonifácio pode ser observado nas instruções que escreveu para a bancada paulista em 1821. […] O plano incluía educação primária gratuita para todos e a criação de pelo menos uma universidade para o ensino superior de medicina, ciências naturais, direito e economia. Mais surpreendente ainda era a proposta de transferência da capital, do Rio de Janeiro para uma cidade a ser criada nas cabeceiras do rio São Francisco, com o objetivo de promover e facilitar a integração nacional.”

Até o Grito do Ipiranga, em 7 de setembro de 1822, D. Pedro tentou unir um povo que, por conta de sua geografia, possuía interesses e motivações extremamente diferentes. Para isso, se aliou a José Bonifácio de Andrada. Um homem de família rica, que estudou diversos saberes e visitou inúmeros países da Europa. Até aquele momento o príncipe oscilava entre as tropas leais a Portugal, os radicais da maçonaria que queriam a ruptura para formar uma República e os amigos íntimos de boêmia. Bonifácio foi, então, o elo que faltava à D. Pedro na execução do plano de independência, trazendo serenidade e inteligência política.

Ao saber que as cortes portuguesas lançaram um ultimato, obrigando o seu retorno à Portugal, D. Pedro não viu outra alternativa a não ser declarar a colônia do Brasil independente. O tal Grito do Ipiranga foi dado às margens do riacho Ipiranga, com a compania de uma comitiva muito pequena de soldados, padres e políticos. Para completar o quadro pitoresco, D. Pedro estava com desarranjo intestinal. Ele e sua comitiva estavam voltando de Santos, onde D. Pedro foi visitar sua amante mais famosa, Domitila, marquesa de Santos.

“No grande confronto de opiniões e interesses observado no período, a ameaça de uma rebelião escrava era vista como um perigo mais urgente e assustador do que todas as demais dificuldades. Era esse o inimigo comum, o verdadeiro fantasma que pairava no horizonte do novo país. E contra ele se uniram os nascidos de aquém e além-mar, monarquistas e republicanos, liberais e absolutistas, federalistas e centralizadores, maçons e católicos, comerciantes e senhores de engenho, civis e militares.”

Com a independência, os diversos Brasis entraram em crise. As províncias do Maranhão, Pará e Bahia, se colocaram ao lado da metrópole, e foi somente com muito derramamento de sangue que D. Pedro I conseguiu manter a unidade. Sem Exército ou Marinha e com um efetivo de soldados sem treinamento, em sua maioria voluntários e escravos, as forças de D. Pedro I conseguiram subjulgar os portugueses e serem reconhecidos como um país autônomo. Mas D. Pedro I logo percebeu que governar um país recém formado era uma tarefa tão árdua quanto a separação de Portugal.

Com grupos tão heterogêneos na elite (latifundiários, senhores de engenho, traficantes de escravos, marqueses e duques, maçons, federalistas, liberais, monarquistas, etc.) as brigas internas sempre atrapalharam os primeiros anos de governo. Com a morte de D. João VI em 1826, D. Pedro era ao mesmo tempo D. Pedro I do Brasil e D. Pedro IV de Portugal. Apesar de ter abdicado do trono português em favor de sua filha mais velha Maria, se viu obrogado a retornar em 1831 para conter o avanço dos soldados de seu irmão D. Miguel que queria tomar o trono para si. Deixou no Brasil o jovem Pedro de Alcântara, futuro D. Pedro II, com 5 anos, como príncipe regente.

“A História do Brasil está repleta de mitos nos quais acontecimentos reais do passado se confundem com situações imaginadas, construídas ou modificadas pelas gerações posteriores de acordo com a conveniência ou necessidade de cada momento.”

A História da Independência é muito mais do que consigo escrever em um post. É uma história de um homem, D, Pedro, insaciável na cama, que teve dezenas de amantes e vários filhos bastardos. De uma princesa (Leopoldina) recatada e resiliente que morreu triste e sozinha. De um homem inteligente (Bonifácio) que foi o pilar de sustentação do novo país. E de tantos homens e mulheres que lutaram nas guerras de independência e contribuíram com seu sangue para escrever um dos capítulos mais incríveis da História do Brasil. Para quem quiser ir além desse post, sugiro fazer algumas pesquisa sobre Thomas Cochrane; Dia do Fico; Batalha do Jenipapo; Noite das Garrafadas.

Apesar de ser importante conhecer a História do Brasil é triste perceber como a sociedade brasileira avançou muito pouco em quase 200 anos. Ainda somos um país misógino, racista e elitista. Ainda não reconhecemos a igualdade entre as pessoas. Ainda convivemos com a corrupção e com o desvio. O descaminho é a via que o Brasil pegou em 1822 e ainda não conseguiu sair.

A sugestão de filme é Independência ou Morte, de 1972.

Na imagem destacada o quadro Independência ou Morte, de Pedro Américo – 1888

Comprar:

Amazon

Até a próxima!

6 comentários

  1. isto é que eu chamo de uma resenha bem feita, elaborada com primor linguístico, com embasamento e sugestões para quem quiser conhecer a história da própria pátria que dizem defender, mas, sequer leram uma página.
    Parabéns, Gabriel, pelo excepcional post, no dia da independência que ainda não descobriu a liberdade (escrevi sobre isto, hoje no meu blog, em forma de prosa poética).
    PS: Estes Bonifácios, não aquele, mas, seus descendentes continuam elitistas, ricos e ‘inteligentes’ para manterem a fama e a riqueza até hoje. Barbacena, minha cidade natal que o diga.

    Curtido por 3 pessoas

    1. Muito obrigado pelas palavras meu amigo. Muito me honra a sua presença e o seu comentário. Confesso que o primor linguístico eu aprimoro acompanhando textos como os que você escreve.
      Assim como em Barbacena, em todo o Brasil ainda guardamos um pouco dos mandos e desmandos de famílias enraizadas desde a Colônia e o Império.
      Grande abraço.

      Curtido por 2 pessoas

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s